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“Tenho sempre um desejo enorme de aprender”

Mário Júlio Reis tem sido um cidadão ativo num concelho que o acolheu de braços abertos no início dos anos 80. Foi ele o convidado da Conversa na Taberna do dia 24 de abril.


Mário Júlio Reis é professor do ensino básico. Poderia ter enveredado por uma carreira no teatro, ou até mesmo por um percurso na vertente das artes plásticas, mas o ensino pareceu-lhe ser uma “área mais segura”.
 
Defensor de causas sociais e ambientais, e sobretudo do interesse coletivo, foi abraçando ao longo da sua vida um vasto conjunto de atividades e projetos, que o ajudaram a enriquecer-se profissional e pessoalmente, e que contribuíram verdadeiramente para o desenvolvimento de uma comunidade mais participativa, solidária e desperta para os valores da cultura.
 
Mário Júlio Reis não nasceu no Cartaxo, mas considera esta ser a sua terra, porque como disse um dia Hemingway, “a nossa terra é onde enterramos os nossos avós e onde nascem os nossos filhos”.
 
Nasceu há 55 anos em Angola e, tal como muitos outros portugueses, regressou a Portugal juntamente com a família em 1975. Depois de uma passagem pela cidade do Porto – onde fez o curso do Magistério Primário e, paralelamente, o curso de História de Artes Decorativas e um curso de Teatro de nível profissional – instalou-se de forma definitiva no Cartaxo, no início dos anos 80.
 
“O Cartaxo acolheu-nos de braços abertos, foi muito solidário comigo. Nunca sentimos que as pessoas nos olhassem como alguém que viesse ocupar o seu espaço. Construímos raízes aqui, por isso sou mais do Cartaxo do que qualquer outro lado”.
 
O “apego ao Cartaxo” começou à medida que se foi envolvendo no movimento associativo. Primeiro com a formação do Grupo 72 de Escoteiros, depois com a sua ligação ao Grupo de Teatro Amadores Combate e ao Centro Cultural do Concelho do Cartaxo.
 

A “hospitalidade muito significativa” que o Cartaxo lhe transmitia contribuiu em larga medida para a sua participação mais ativa no associativismo. Até porque, para si, “o associativismo é uma marca, é a instituição da solidariedade, era ali que me sentia realizado, na medida em que as pessoas mostravam ser capazes de fazer coisas novas e diferentes”.
 
Muitas foram as atividades de âmbito cultural e desportivo que nasceram a partir do movimento associativo. Uma delas marcou-o particularmente: a primeira exposição de Jorge Maltieira. Sobretudo porque o artista foi para Mário Júlio um dos seus “muitos mestres”,  que muito contribuiu para o seu próprio desenvolvimento.
 
Foi também muito gratificante para si ter sido coordenador das atividades de educação de adultos dos concelhos do Cartaxo, Santarém e Rio Maior e que, nos anos 80, permitiram alfabetizar centenas de pessoas no concelho.
 
Toda esta sua atividade junto da comunidade coincidia com o início da sua carreira no ensino. Começou a dar aulas em Vila Chã de Ourique, mas pouco tempo depois um novo projeto afastou-o temporariamente das salas de aula – o programa de Luta Contra a Pobreza da então CEE.
 
De regresso ao meio escolar, Mário Júlio teve a oportunidade de implementar um projeto há muito ambicionado. “Tive a possibilidade de trabalhar exclusivamente em artes e expressões nas escolas. Durante três anos recebi dos professores o planeamento e realizei com as crianças trabalhos artísticos”.
 
Mário Júlio esteve também na linha da frente da reorganização administrativa escolar, que levou à constituição da primeira escola com autonomia administrativa no concelho, “enfeitiçado com a procura de novas respostas para as escolas, de preferência, melhores”.
 
Relativamente ao ensino do presente, Mário Júlio considera que “a preparação de base” do cidadão – que corresponde até ao 2.º ciclo – está num “caminho razoável”. O mesmo não se passa quanto “ao ensino a montante”, o qual “não corresponde às necessidades e àquilo que o país precisa”.
 
O ensino profissional é, na sua opinião, “anedótico”, havendo “uma clivagem muito grande” entre os cursos profissionais e os cursos universitários. “As exigências intelectuais para as medicinas e engenharias são enormes, mas sai-se de um curso de engenharia de construção civil sem se saber o que é uma colher de pedreiro. Formamos grandes técnicos em áreas muito especializadas e depois faltam-nos técnicos intermédios e isso não faz andar o país”.
 


 
Também a vertente ecológica foi trabalhada nas escolas, no âmbito de um projeto dinamizado por Mário Júlio, quando integrou a secção de Tempos Livres do Jardim de Infância do Cartaxo. “A campanha chamava-se Papel Velho Vira Livro e toda a receita era investida em livros para a biblioteca escolar. Criou-se um movimento muito interessante na cidade, em que as pessoas chegavam até nós com sacos cheios de jornais e revistas”.
 
Esta iniciativa gerou inclusive um “caso caricato”, que levou Mário Júlio a testemunhar num processo contra uma das tipografias da cidade – que colaborou na campanha – e que estava a ser acusada de não ter declarado a entrega dos resíduos de papel a empresas que efetuam essa recolha.
 
Mais recentemente, surgiu a campanha dos Espantalhos, dinamizada pela EcoCartaxo, e que, além de ter por base os conceitos de reutilização dos materiais, “recupera uma tradição do nosso povo”. No Cartaxo, a campanha Mãos à Obra Portugal teve também grande impacto, mas na opinião de Mário Júlio, coordenador local da campanha, o projeto “merece ser repensado, porque não podemos continuar a limpar todos os anos o que outros, impunemente, sujam. Não é nada pedagógico”.
 
O teatro é uma das suas grandes paixões. Admite ter chegado a ter “o devaneio de ser ator”, mas talvez “por excesso de comodismo” na altura, e também pelas dificuldades que enfrentavam os artistas nos final dos anos 70, achou que a profissão de professor seria mais segura.
 
No entanto, o “bichinho nunca deixou de morder”. Por isso, quando nasceu o projeto de teatro comunitário no Cartaxo, não pensou duas vezes e disponibilizou-se para participar tanto no palco como fora dele. “Para mim é tão importante o que prega as tábuas para o cenário como o artista que faz a primeira personagem. É assim que penso o teatro, como uma atividade de grupo”.
 
A sua intervenção na comunidade abrange também a política. Mário Júlio está a acabar o segundo mandato como vereador na Câmara Municipal, um convite que aceitou apenas com o objetivo de “poder servir mais e melhor o concelho”.
 
Movido pelo “desejo enorme de aprender”, Mário Júlio tem sido um cidadão ativo, intervindo nas mais diferentes áreas. Isso só tem sido possível porque “o concelho deu-me uma série de oportunidades que tentei aproveitar ao máximo”. Essas oportunidades transformaram-se em “grandes mais-valias” para a sua própria vida, fazendo com que “aqui tenha aprendido muito do que sei hoje”.