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É o amor à modalidade que “faz vingar um ciclista”

Participou em várias Voltas a Espanha e a França, ao Estado de São Paulo e à Andaluzia. Nas várias provas Lisboa/Porto e Porto/Lisboa em que correu, destacam-se o 1.º, 2.º e 6.º lugares.

 
No dia 31 de outubro, sentou-se à mesa da Taberna do Museu Rural e do Vinho Francisco Valada, ciclista natural do Cartaxo que em 1966 se vestiu de amarelo na Volta a Portugal em Bicicleta
 
No ano de 1966, Francisco Valada conquistou o marco que tantos corredores ambicionam – a camisola amarela na Volta a Portugal em Bicicleta. A esse título, somam-se muitos outros feitos que levam o seu nome a constar em letras maiúsculas nos historiais do ciclismo nacional.
 
Mas curiosamente, não são os momentos das grandes vitórias que mais marcaram Francisco Valada. São antes os incentivos que recebia nas ruas apinhadas de gente das localidades do concelho e arredores, que se engalanavam por ocasião da sua festa popular e tinham como ponto alto as corridas de bicicleta. É o espírito de entrega que o levava aos treinos a Alpiarça, não de carro, mas de bicicleta. É o amor à modalidade que o fazia levantar cedo a um domingo, pedalar até Marinhais ou Alcanede, e depois da corrida regressar a casa já de noite, exausto e a ainda a correr contra o tempo, a desejar que o relógio parasse assim que se estendesse na cama.
 
As décadas de 50 e 60 foram “os anos de ouro” deste ciclista nascido no Cartaxo a 15 de maio de 1941. Na sua infância, passava o tempo a jogar à bola nas ruas do Cartaxo. O pai deu-lhe condições de prosseguir os estudos, mas assim que chumbou no 2.º ano, teve de ir trabalhar. Aos 13 anos, passa a ser ajudante do pai, que fazia transporte de mercadorias em camionetas.
 
 
 
Seis anos mais tarde, teve oportunidade de aprender o ofício de mecânico e é por essa altura que surgiu “a doença da bicicleta”. O seu pai, que era um grande “amante do desporto” e que praticou quase todas as modalidades, incentivou-o a continuar e assim que o patrão do filho começou a não gostar dos atrasos e saídas do trabalho mais cedo para ir aos treinos, ajudou Francisco Valada a dedicar-se ao ciclismo a tempo inteiro, sustentando-o nos primeiros tempos. “Nunca mais parei. Acabou o mecânico, começou o corredor de bicicletas”.
 
E nesse começo da sua carreira desportiva, o primeiro clube que representou foi o Águias de Alpiarça, “que me abriu as portas para um clube grande”. Despertou a atenção do Benfica e após a participação nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, foi para o clube da águia.
 
Vestindo a camisola encarnada, fez oito Voltas a Portugal, conquistando um 1.º lugar, um 5.º e um 8.º. Nas restantes, esteve sempre nos 20 primeiros.
Nessa altura, o que Francisco Valada ganhava no ciclismo “não dava para ser rico”, mas também não se queixava. “Em cada Volta, ganhava 20 contos. Para se ter uma comparação, o meu primeiro automóvel custou 25”.
 
Participou em várias Voltas a Espanha e a França, ao Estado de São Paulo e à Andaluzia. Nas várias provas Lisboa/Porto e Porto/Lisboa em que correu, destacam-se o 1.º, 2.º e 6.º lugares.
 
Passou ainda pela equipa Âmbar e, já no papel de treinador, pelo Sporting, pelo Águias de Alpiarça e pelo Benfica. “Com o 25 de abril, acabou o ciclismo no Benfica. Começou o ofício de moleiro, até hoje”.
 
O entusiasmo que Francisco Valada emprega nas palavras ao falar do ciclismo do seu tempo desvanece-se assim que entra no presente. “A modalidade está condenada. Os grandes deixaram de apostar no ciclismo e cada vez é mais difícil arranjar patrocínios. Os miúdos andam na escola até aos 18 anos e não têm clubes onde começar. Hoje o ciclismo é muito caro. Hoje há mais vaidade do que pernas”.
 
 
 
Além das “diferenças assustadoras” entre o ciclismo praticado outrora e a realidade atual, Francisco Valada distingue também o ciclismo das outras modalidades em relação ao nível de exigência.
 
“Quem não levar a modalidade a sério, não tem hipótese de vingar. E o ciclismo não se compadece com borgas. Um jogador de futebol que fez noitada no dia anterior, no dia do jogo passa a bola, um ciclista não pode passar a bicicleta”.
 
Ao longo da sua vida de corredor, Francisco Valada só comprou uma bicicleta e custou-lhe três contos. O material de que necessitava, escolheu sempre do mais barato, porque lhe saía do bolso.
 
Hoje continua a andar em duas rodas, mas a bicicleta é outra – a pasteleira. Seja qual for a marca ou o modelo, faz jus ao facto de não haver outro concelho no país que tenha criado tantos ciclistas vencedores da Volta a Portugal em Bicicleta como o Cartaxo.