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“A tauromaquia é uma grande escola de vida”

Considerado um dos grandes cavaleiros tauromáquicos de Portugal, desde pequeno que Manuel Jorge de Oliveira admirava a beleza da arte equestre.

Manuel Jorge de Oliveira é considerado um dos grandes cavaleiros tauromáquicos de Porugal Depois de cerca de 30 anos de intensa actividade a tourear na arena, passou a dedicar-se à equitação, dando aulas na sua quinta do Cartaxo e um pouco por toda a Europa. Manuel Jorge de Oliveira foi o convidado da edição n.º 38 das Conversas da Taberna, realizada no dia 26 de Outubro.
 
O gosto aguça o engenho. Dir-se-ia até que a persistência e o empenho fazem o artista. E a sabedoria é uma ciência que se adquire com base na riqueza das vivências do dia-a-dia. Desde pequeno que Manuel Jorge de Oliveira admirava a beleza da arte equestre. Sobretudo a cumplicidade que se poderia criar entre o homem e o cavalo. E se fosse numa arena, enfrentando o olhar do touro, tanto melhor.
 
Foi movido por essa vontade de se tornar cavaleiro tauromáquico que desde pequenino começou a treinar. Primeiro a montar uma burra, chamada Benfica, com apenas 5 ou 6 anos. Depois em cima de um cavalo a tourear um cão.
 
O facto de ter nascido naquela que considera ter sido “a casa agrícola mais importante do país do século passado” – Ortigão Costa, em Azambuja, onde o seu pai trabalhou 48 anos – contribuiu em muito para ganhar o gosto pelo cavalo.
 
“Quando eu nasci, não havia na casa agrícola ambiente de touros. E cavalos eram muito poucos, era mais o trabalho rural. Mas a pouco e pouco, o meu pai, em conversa com o Dr. Ortigão Costa, foi-o incentivando a ter gado bravo. Eu vivia ao lado da cocheira e com 4 ou 5 anos passava lá a maior parte do tempo. Cheguei a levar umas boas palmadas porque queria andar a cavalo e não me deixavam”.
 
O cocheiro, por algumas vezes, lá fez esse favor a Manuel Jorge de Oliveira, em troca de uma garrafita de vinho que ele roubava ao pai. Até aos 7 anos montava o burro Benfica, e depois o cavalo Malhinha, onde foi aprendendo “umas coisas”.
Recebeu as primeiras noções de equitação de José Vicente, cavaleiro da Fonte Boa, que foi trabalhar para a casa agrícola. A essa experiência somou o fervor dos espectáculos nas praças de touros, que frequentemente assistia, levado pelo seu pai, que era um grande admirador do Mestre Baptista. As duas vivências aguçaram-lhe a paixão.
 
Da bancada para a arena foi afinal um pequeno passo. E aos 10 anos, aquilo que era visto pelos outros como uma brincadeira deu lugar à concretização de um grande sonho.
 
“Quando fiz 10 anos fui convidado pelos Bombeiros de Azambuja para participar numa brincadeira. Pediram ao meu pai para deixar o rapaz lá ir tourear uma novilha e ele disse que eu não tinha experiência nenhuma e foi então que lhe disseram que eu à noite, quando ninguém via, toureava o cão. Ele pôs-se à espreita e pregou-me uma grande descompostura, mas acabei por ir tourear à Azambuja, sem nunca ter toureado uma vaca na vida. Foi engraçado, porque o cavalo fazia à vaca o que fazia ao cão”.
 
Foi assim que a sua história começou. “Foi uma evolução lenta, quando comecei ninguém dava nada por mim. Dos 10 aos 14 anos todos me diziam que eu não valia a pena, diziam ao meu pai que eu não tinha grande jeito, era grandalhão, tinha cara de poucos amigos, não me ria para o público…”
 
Mas a partir dos 14 anos, o cenário foi diferente. “Dos 14 aos 18, fui o amador que mais toureou. Com 18 anos, tinha sido o cavaleiro amador mais destacado de todos os tempos”.
 
Com 17 anos fez a prova de praticante e no dia 2 de Junho de 1977, com 18 anos, tirou a alternativa, no Campo Pequeno. “Ninguém queria que eu tirasse a alternativa, todos diziam que era um disparate”.
 
Mas não foi. Determinado, não deu ouvidos a opiniões pessimistas, nem ao seu pai, que queria que ele se formasse em veterinária, e seguiu em frente. “Foi a minha sorte. A partir daí nunca mais parei”. Nos primeiros 25 anos de alternativa, participou em mais de mil corridas e lidou mais de dois mil touros. Com a particularidade de a centena de cavalos que utilizou todos eles terem sido postos por si a enfrentar os touros na arena, nunca tendo adquirido montadas já postas a tourear.
 
Até aos dias de hoje é o único cavaleiro tauromáquico português detentor da Placa de Prata da Imprensa Taurina, atribuída pelo Ministério da Cultura de Espanha, que distinguiu no ano de 1979 Manuel Jorge de Oliveira pela qualidade do trabalho desenvolvido. Foi também premiado com o troféu francês “Rojão de Oiro”, tendo sido, até hoje, o único cavaleiro estrangeiro a conseguir cortar um rabo nessa corrida.
 
No final dos anos 80, “com a mudança de mentalidades”, achou que era altura de enveredar por um outro caminho, pelo qual Manuel Jorge de Oliveira também sentia gosto: a equitação. “Hoje estou contente, porque, se tenho continuado nos touros, hoje estava falido e assim ainda vou ganhando para comer”.
 
Manuel Jorge de Oliveira dá aulas de equitação em vários países da Europa, designadamente, Itália, Suécia, Áustria, Alemanha e França. São também muitos os estrangeiros que se deslocam regularmente ao Cartaxo para fazerem estágios na sua escola equestre.
 
“Para mim foi importante ser cavaleiro tauromáquico e considero que a tauromaquia é uma coisa a defender a todo o custo em Portugal. Acho que é uma grande falta de cultura as pessoas dizerem que são contra os touros, porque qualquer pessoa culta – culta no sentido da realidade da vida e não dos livros, porque já conheci pessoas analfabetas muito mais cultas do que gente formada – sabe a importância da festa dos touros e a sua história”.
 
E se o touro bravo hoje ainda continua a existir, deve-se também a esta cultura taurina. “O touro bravo acaba por ser uma consequência da sua própria lide na arena. A vida dele na terra tem como consequência a vida na arena. Se não fosse isso a raça acabava, não tinha razão de existir. O touro acaba por sobreviver dando a sua vida na arena”.
 
Manuel Jorge de Oliveira defende inclusive que “uma das causas da crise actual na Europa deve-se ao facto da própria Europa ter tirado a identidade aos países. Sou contra a CEE, sempre fui, e fui contra o Euro. Fomos enganados e traídos com a integração de Portugal na Europa. Portugal tem de ser Portugal. A terra está cá, as pessoas estão cá, temos os nossos produtos, o mar. Se há crise é porque as pessoas querem estar em crise”.
 
Ao fim de 42 anos de actividade, 32 dos quais passados no Cartaxo, Manuel Jorge de Oliveira está satisfeito com o seu percurso. “Tenho a minha vida definida, sou auto-suficiente. Desde os 10 anos até hoje não fiz outra coisa se não trabalhar, não sei o que são férias. Mas também não tiro férias porque faço aquilo que gosto, por isso não preciso de descansar”.
 
Nada tem mais significado para Manuel Jorge de Oliveira do que a terra e as suas raízes. Por isso lamenta o preconceito que continua a existir em relação ao campo. “Os jovens de hoje, até aos 25 anos, sabem muito pouco da terra. Ficam chocados por verem matar uma galinha. Tem vindo a perder-se uma grande identidade, que é nossa e faz parte de nós”.
 
Algo que não o preocupa – o futuro. “Para mim o importante é o momento. E isto aprendi com os touros. Quando se toureia um touro, se pensarmos que o touro vai para um lado, estragamos tudo. Não se pode ir para um lado por preconceito. Temos de olhar para ele e entendê-lo no momento. E essa forma de estar com o touro, com o cavalo na arena, e até com o público, ensinou-me a ver a vida. Aprendemos a ter ética e a ter honra. É uma grande escola de vida”. E para essa, não há livros. Apenas a riqueza de cada dia que passa.
 
 
* Este texto foi escrito antes da adesão ao Novo Acordo Ortográfico.