A verdade é que deixaram de ser comprados somente em função do conforto e da qualidade, para passar também a corresponderem, cada vez mais, aos detalhes da moda. São considerados, inclusive, um dos elementos fundamentais de um guarda-roupa que, de forma generalizada, tenta seguir as tendências, os estilos e o glamour do momento.
Com cores e formas cada vez mais criativas e arrojadas, o calçado deixou, no entanto, de possuir a autenticidade que fazia de cada sapato uma peça única e singular. O seu fabrico em série banalizou uma autenticidade que pertencia aos senhores do calçado artesanal, levando, por sua vez, à extinção de um ofício que representava o ganha-pão de muitos cartaxeiros até cerca dos anos 70, altura em que a profissão começou a entrar em decadência. Nessa altura, um par de sapatos “duravam quase uma vida” e o trabalho para os fazer custava, pelo menos, um dia.

Mais do que constatações, Manuel Fialho, de 73 anos, recorda estes factos com sentimento. Sapateiro desde a adolescência, aos 12 anos deixou a terra natal de Santa Catarina, em Caldas da Rainha, para se juntar aos pais que mais cedo já se haviam mudado para o Cartaxo. Uma vida nova que exigia um percurso orientado para a via profissional, por isso, decidiu aprender o ofício do fabrico do calçado.
“Foi aí que começou a minha desgraça”, desabafou, dado que esteve cerca de dois anos sem ver retribuído o trabalho que executava. Na década de 50, um sapateiro ganhava 20 escudos por semana, mas Manuel Fialho custou a ver o seu dinheiro, daí a sua desmotivação no começo da carreira. Mas melhores dias vieram. “Fui para outro patrão que, embora fosse ainda mais malandro, pelo menos pagava-me ao fim-de-semana”, acrescentou.

Fim-de-semana esse que era sagrado: “Era raro ir à taberna durante a semana, mas ao domingo ia sempre um bocadinho”. Assim como os bailes, em que Manuel Fialho não perdia um. “Era o primeiro a chegar e não faltava a nenhum”, confirma. Depois de ter passado por uma oficina em Pontével, onde já ganhava 25 escudos por dia, este sapateiro interrompeu o ofício para cumprir o serviço militar. Mas, assim que virou as costas ao quartel, voltou ao trabalho de concepção e arranjo de sapatos.
Foi na sapataria Soares, na Rua da República, que permaneceu até ao fim do ofício. Uma longa carreira que envolveu também o exercício da profissão por conta própria, durante os últimos 20 anos. “Tinha oficina e sapataria, mas em 2000, quando fechei o espaço, nem sequer quis saber quanto é que me ficaram a dever. Fechei os livros dos registos e deitei-os fora”, revela entristecido.
Entre o desenho no papel e o produto final decorria, pelo menos, um dia de trabalho. Pelo meio, exigia-se uma série de pormenores que teriam de ser cumpridos a preceito, desde fazer o molde, cozer e pregar. No resto, cabia ao cliente desembolsar 30 escudos. “Não se ganhava muito, por isso cheguei a trabalhar na oficina por conta de patrões e em casa para mim, mas chegava a contar 16 horas de trabalho”, recordou.

Mas, neste caso, não se aplicou a lógica do provérbio “em casa de ferreiro, espeto de pau”, porque quando casou, Manuel Fialho levou para a sua nova casa nem mais nem menos do que 14 pares de sapatos. “Chegavam a dizer-me – olha ali vai o sapateiro rico!”. Mas não era afortunando, apenas tinha o cuidado de se apresentar bem. “Fui amealhando o meu dinheiro e gostava de andar bem vestido e sempre de barba feita”, esclarece.
A grande concorrência da profissão não permitiu que os sapateiros enriquecessem à custa do ofício. “Eles picavam-se uns aos outros, se um levava 30 escudos, o outro levava 25, e se este levava 25, o outro levava 20”. Sendo assim, quem acabava por ficar a ganhar eram os clientes.
À semelhança de outros ofícios, também este entrou em decadência na nossa sociedade e acabou por se extinguir, havendo actualmente apenas pequenos espaços de reparação de calçado. Quanto aos sapatos de hoje, Manuel Fialho “não põe defeitos”, mas alerta que na altura, quando os fazia à mão, “eles saíam direitinhos e perfeitos”, sendo também bem mais resistentes.
Estas foram algumas das recordações levadas por Manuel Fialho à quarta edição das Conversas na Taberna, no dia 23 de Abril.