Encontro reúne historiadores, técnicos e autarcas de vários pontos do país
I Jornadas da Toponímia do Vinho no Cartaxo
A toponímia como instrumento fundamental de preservação da cultura e da identidade local, que contribui para a valorização histórica dos costumes, pessoas, eventos e lugares, foi o ponto de partida para um conjunto de reflexões, apresentadas nas I Jornadas de Toponímia do Vinho, promovidas pela Câmara do Cartaxo, no dia 3 de Outubro.
Marcaram presença neste encontro autarquias de vários pontos do país, entre as quais a de Lisboa e de Albufeira, que apresentaram a experiência e o trabalho desenvolvido no âmbito das suas Comissões Municipais de Toponímia. A sessão de abertura foi presidida por António Góis, presidente da Assembleia Municipal do Cartaxo, que distinguiu a presença de um número significativo de autarcas, que se associou ao Cartaxo para abordar uma área “tão fundamental, como é o caso da toponímia”.
Historiadores recordam testemunhos do passado
Rogério Coito e António Nabais, historiadores e membros da Comissão Municipal de Toponímia do Cartaxo, integraram o primeiro painel de oradores, intitulado “Toponímia: Testemunhos da História, Memória dos Nomes, Perpetuação de Lendas”.
Considerando a riqueza histórica do concelho, Rogério Coito fez uma abordagem ao Cartaxo, desde o século XIII, altura em que aparecem pela primeira vez registos do nome “Cartaxo”, até ao século XX, fazendo referência, entre outros aspectos, a António Mesquita (1868 – 1946), lavrador e liberal, natural do Cartaxo.
Ao longo da sua intervenção, o historiador abordou a forma como o Cartaxo foi povoado, depois de outorgada a sua Carta Foral, em 1312, e relevou a importância da actividade agrícola, designadamente a vinha, para o desenvolvimento e crescimento do concelho. No âmbito do património edificado, Rogério Coito fez referência à Quinta do Moinho da Fonte, ao pelourinho do Cartaxo, ao convento erguido pelos frades franciscanos no centro da então vila do Cartaxo, onde hoje é a Câmara Municipal, apresentando fotografias de quadros, pinturas e imagens religiosas deste convento que foram recuperadas, entre outros.
Recordou também o transporte dos barris de vinho (efectuado em carros de bois até Santana e depois de barco até ao Poço do Bispo, a partir do qual eram então distribuídos pelas adegas da capital), a figura de António Mesquita, que deixou todos os seus bens à Câmara do Cartaxo, e alguns nomes de ruas que, ao longo dos tempos, desapareceram, como o caso da Rua Direita, hoje Rua Mouzinho de Albuquerque, a Rua da Carreira, hoje Rua Batalhoz, ou a Rua das Adegas, hoje Rua Marcelino Mesquita.
Por sua vez, António Nabais, que além de historiador é também museólogo, apresentou um conceito muito completo da designação “toponímia”. Considerando-a “uma ferramenta fundamental para o investigador”, demonstrou uma certa preocupação quanto à alteração ou substituição dos nomes das ruas, alertando as Comissões de Toponímia presentes para os reflexos negativos que essa mudança pode ter na investigação histórica dos diferentes lugares.
A origem dos nomes atribuídos a localidades e arruamentos foi também abordada por António Nabais, que apresentou a importância da influência do clima, do relevo, dos animais, da actividade agrícola ou da organização das sociedades na atribuição dessas designações. Por exemplo, Vale da Pinta pode estar na origem da existência de um vale, o nome de Reguengo revela que pertenceu ao Rei, Pontével decorre da existência de uma ponte e um vale e Lapa de uma gruta, entre outros.
Para documentar e preservar os topónimos dos lugares e respectivos significados, António Nabais lançou um desafio à Comissão Municipal, sugerindo a criação de um dicionário dos topónimos locais.
Sistemas de Informação Urbana e papel do Código Postal
O segundo período de painéis, ainda na parte da manhã, contou com a colaboração da Comunidade Urbana da Lezíria do Tejo (CULT) e dos CTT – Cartaxo. “A Toponímia e os Sistemas de Informação Urbana” foi o tema da intervenção de Natacha Oliveira e Sónia Serra, representantes da CULT, que apresentaram o trabalho que tem sido desenvolvido nesta área por esta entidade inter-municipal.
Nos últimos 6 anos, a CULT tem apostado na aquisição de cartografia e de cadastros geométricos, o que permite um levantamento mais concreto da área dos 11 municípios, disponibilizado on-line no site do projecto Ribatejo Digital. A título de exemplo, Natacha Oliveira informou que o concelho do Cartaxo possui 10.600 edifícios, 835 arruamentos e 1.913 unidades de actividade económica.
O Ribatejo Digital tem vindo a representar uma “importante base de trabalho”, sublinhou Sónia Serra, uma vez que permite uma maior simplificação da informação geográfica, que facilmente pode ser consultada pelos munícipes.
João Afonso, representante dos CTT, centrou a sua intervenção no “Endereçamento Eficiente, Código Postal e Toponímia”. Considerando um volume de 5,5 milhões de correspondências endereçadas por dia, João Afonso salientou a importância e a necessidade de um endereçamento postal eficaz, para um serviço de entrega com qualidade.
Sendo a toponímia a base para a localização de moradas e endereçamento postal, “é fundamental que os arruamentos tenham designações toponímicas de referência estruturada, com uma lógica simples de entender e estável no tempo”, defendeu João Afonso. Relativamente aos princípios básicos de toponímia, os CTT entendem que a informação inequívoca e estável, a designação das vias de acordo com as regras geométricas, a visibilidade das inscrições de ruas e números de portas e a existência de um ficheiro do município actualizado contribuem, significativamente, para um endereçamento e uma entrega mais eficientes.
Lisboa e Albufeira partilham experiências
Carlos Quintino, vereador do pelouro da Toponímia da Câmara de Albufeira e presidente da Comissão Municipal de Toponímia, e Paula Levy, representante da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, que veio ao Cartaxo acompanhada da historiadora Teresa Pereira, integraram o 4.º painel de oradores, subordinado ao tema “Experiências das Comissões Municipais de Toponímia”.
A Comissão de Toponímia de Albufeira foi criada em 1993, sendo que até 2006 contou essencialmente com funcionários da autarquia e dos CTT e a partir dessa data passou a integrar também elementos das Juntas de Freguesia. Entre as principais linhas orientadoras desta Comissão, Carlos Quintino distinguiu a importância de privilegiar a memória, explorar as raízes dos lugares, considerar estruturas emblemáticas e perpetuar os nomes de personalidades que contribuíram para o desenvolvimento de Albufeira, nas mais diversas áreas.
A Comissão de Toponímia de Lisboa foi a primeira a ser criada a nível nacional, tendo sido constituída em 1943. Actualmente, esta entidade é composta, além dos funcionários da autarquia, por elementos das três universidades públicas lisboetas, Sociedade Portuguesa de Autores, Grupo de Amigos de Lisboa e por personalidades com mérito reconhecido em estudos dedicados à olisipografia.
A vasta experiência e o trabalho intenso da Comissão responsável pela toponímia da capital portuguesa foi expressa nestas Jornadas, onde Paula Levy, entre outras considerações, destacou a importância da não alteração de topónimos tradicionais, das designações conterem, além do topónimo, uma legenda sucinta sobre o significado do mesmo e a não atribuição de topónimos a personalidades vivas.
A título de curiosidade, Paula Levy frisou que, desde 1990, a Comissão atribuiu 446 novos topónimos e que a maioria destes homenageou escritores/poetas/jornalistas, depois os professores universitários, seguidos dos políticos. A intervenção contou também com a apresentação de curiosidades relacionadas com alguns nomes de ruas da cidade de Lisboa, pela historiadora Teresa Pereira, e a projecção de um filme sobre as influências árabes na toponímia lisboeta.
Toponímia do Cartaxo on-line
O dia das Jornadas de Toponímia do Vinho foi aproveitado para o lançamento e apresentação da área do site da autarquia dedicada à toponímia. Neste espaço on-line, podem ser consultados, para já, a constituição da Comissão de Toponímia, os seus objectivos e a descrição de um conjunto de topónimos relacionados com a temática do vinho e aprovados pela Câmara.
Esta área on-line foi apresentada por José Arruda, representante da Comissão Municipal de Toponímia e Chefe de Gabinete do Presidente da Câmara do Cartaxo. Entre os topónimos já disponibilizados para consulta, destaque para a Alameda do Vinho, inaugurada neste dia, 3 de Outubro, e para as ruas dos Vinhateiros, dos Tanoeiros, da Adiafa, Fernão Pires, Trincadeira, D. Dinis, Dâmaso Xavier dos Santos, Marcelino Mesquita e Carlos Santos.
Através deste espaço, integrado no site da Câmara, os munícipes podem também dar as suas sugestões ou apresentar propostas para nomes de ruas, devidamente fundamentados, que serão depois objecto de apreciação por parte da Comissão de Toponímia.
Veríssimo Serrão no encerramento das Jornadas
O professor catedrático que escreveu 25.285 páginas, publicou 424 obras e 264 artigos, enciclopédias e dicionários, até ao dia 7 de Novembro de 2000, veio ao Cartaxo falar da sua obra e, mais especificamente, da importância que a terra natal assume para cada um de nós.
Joaquim Veríssimo Serrão foi apresentado e homenageado por José Miguel Noras, representante da Associação de Municípios Portugueses do Vinho (AMPV), que distinguiu o contributo desta importante figura para o registo da história portuguesa, coleccionador de um conjunto significativo de prémios, entre os quais o Prémio Nobel da Península Ibérica, e considerado “o mais completo dos ribatejanos”, como frisou José Miguel Noras.
Considerado um dos mais importantes investigadores, Veríssimo Serrão está também entre os maiores nomes da historiografia portuguesa contemporânea. No Cartaxo, distinguiu o trabalho desenvolvido pelos autarcas locais e frisou que a toponímia deverá ser sempre entendida como “o reconhecimento das autarquias pelos filhos da terra”.
Lembrando personalidades que, no passado, tiveram uma determinada importância no concelho, Veríssimo Serrão acrescentou que a atribuição dos topónimos não só é um trabalho que valoriza a história local, como representa também “um sinal de gratidão para com aqueles que fizeram um trabalho meritório pela sua terra”.
Inauguração da Alameda do Vinho
A inauguração da Alameda do Vinho representou o culminar das actividades integradas nas I Jornadas de Toponímia do Vinho. A beneficiação do troço que liga a cidade do Cartaxo à variante de ligação ao Nó de Acesso à A1, em Aveiras de Cima, foi um investimento assegurado pela Câmara do Cartaxo, que ultrapassou 1 milhão de euros.
No acto inaugural, o presidente do município realçou o esforço desenvolvido pela autarquia na concretização desta importante infra-estrutura que, além de homenagear as gentes ligadas ao vinho, representa também uma “porta de abertura a novos horizontes e novos desafios”, uma vez que, entre outras potencialidades, será uma acessibilidade importante no acesso à Zona de Actividades Económicas do Casal Branco, na freguesia de Pontével.
Paulo Caldas deixou também uma mensagem aos cartaxeiros. “Que estes pequenos símbolos positivos de progresso sejam também, em alturas difíceis, um orgulho para as gentes da nossa terra, para que continuem a trabalhar e a ajudar-nos a traçar o melhor caminho para um Cartaxo que se quer cada vez mais desenvolvido”, frisou o autarca.
Balanço das Jornadas positivo
As experiências positivas e a troca de conhecimentos foram os dois principais aspectos apontados por José Arruda e que proporcionaram o enriquecimento deste evento, organizado pela Câmara do Cartaxo.
Apesar da toponímia “ter estado, infelizmente, muito tempo esquecida no nosso concelho, estamos agora no bom caminho”, constatou José Arruda, fazendo referência ao trabalho que tem sido desenvolvido nesta área, designadamente, a área do site da autarquia reservada à toponímia, “que significa um importante passo de valorização da história dos nossos locais”.
O objectivo da Câmara é continuar a promover iniciativas que promovam o aprofundamento das questões relacionadas com a toponímia, explorando, não só a temática do vinho, como outras que assumam particular importância no concelho. A edição de publicações sobre esta área é também outra das intenções da Câmara, que se encontra já a trabalhar na publicação de uma brochura com os nomes das ruas que já foram aprovadas para novos loteamentos.
A participação de autarquias de vários pontos do país significou um contributo fundamental para estas jornadas, assim como as várias entidades que intervieram no encontro, cujas apresentações contribuíram para o sucesso alcançado. Para Paulo Caldas, as I Jornadas de Toponímia do Vinho “foram o iniciar de uma nova forma de trabalhar a toponímia do concelho”, onde o objectivo é fazer com que os novos topónimos sejam propostos de forma fundamentada e ponderada, para que sejam posteriormente aprovados por unanimidade, quer pela Comissão, quer pela Câmara”, concluiu o autarca.