José Calisto foi campeão nacional de atletismo, proprietário de um restaurante que ganhou fama no concelho e na região e hoje é dono de um bar e presidente da Casa do Povo de Pontével. Algumas das aventuras que preenchem a sua vida foram contadas, com uma boa dose de boa disposição, na 22.ª edição das Conversas na Taberna, no dia 31 de Março.
Uma boa história tem de conter muita emoção, algum suspense, uma boa carga de aventura e um pouco de humor à mistura. Encontramos habitualmente boas histórias nos livros e nos filmes, mas não tão facilmente na vida real. E porquê, perguntamos nós…
José Calisto terá certamente a receita. É um homem que sabe falar de tudo, mas não é um fala-barato. Faz rir quem o rodeia, mas sem recorrer a piadas feitas. É amigo do seu amigo, mas não apenas para paródias. Tem a boa disposição reflectida no rosto, mas a sua vida não tem sido um mar de rosas. Homem que não esquece o seu tempo. Cavalheiro quanto baste. Um verdadeiro bairrista, mas, como ele próprio diz, “com uma visão que se estende para lá da Lapónia!”

Nasceu há 66 anos em Pontével, no seio de uma família tradicional. Aos 11 “já andava a acartar tijolo”, na fábrica da Cruz do Campo. Aos 20 alistou-se nos Fuzileiros, onde esteve cinco anos. Após isso, trocou temporariamente a terra natal pela região da Normandia.
Antes desta primeira aventura por terras de França, José Calisto viu o seu nome inscrito no pódio do atletismo nacional. Foi um grande impulsionador do desporto em Pontével, trocando muitas vezes o convívio das adegas pelas corridas. Um empenho merecido, que fez dele campeão nacional dos 800 metros, pelo Sporting, aos 19 anos. “Como me dediquei muito ao desporto, passei ao lado das grandes bebedeiras nas adegas! E quando vim dos Fuzileiros, ainda criei uma equipa de andebol. Em Pontével quase ninguém conhecia a modalidade”.
A juventude do seu tempo deve ao conterrâneo João da Silva Pimenta – que foi director da Secção de Atletismo do Sport Lisboa e Benfica – muito do mérito desportivo. Foi ele que criou a Casa do Povo de Pontével e “começou a puxar aquela carroça. Começámos por ocupar uma antiga loja e era dentro das tulhas do feijão e do grão que mudávamos de roupa. Ele ia à farmácia do Sr. Marrafa buscar cinco escudos de álcool, que dava para 30 atletas. Púnhamos uma pinguinha na palma da mão para esfregar os músculos e lá íamos nós correr por aquele alcatrão fora”.

Mas José Calisto apontava um “pequeno defeito” a João da Silva Pimenta: “ele mandava a malta toda para o Benfica, mas eu dizia-lhe que a mim não me mandava, porque eu queria era ir para o Sporting. E fui. Dia sim, dia não ia treinar para o Sporting, de camioneta, demorava umas duas horas a chegar a Lisboa”.
Quarenta anos depois, José Calisto regressou à primeira colectividade que representou enquanto atleta. Mas desta vez na qualidade de presidente. A Casa do Povo de Pontével continua a manter viva a modalidade de atletismo, mas o agora dirigente quer mais dinamização e mais juventude a praticar desporto. Foi a pensar nessa evolução que criou três novas secções – karaté, ballet e danças de salão – e está a planear obras para valorizar as condições do espaço.
No seu tempo, não eram particularmente as “condições” que atraíam ou afastavam os jovens do desporto. José Calisto ainda se lembra, como se fosse ontem, da primeira vez que calçou os primeiros “sapatos de bico” numa corrida. Foi em Viseu e, coincidência ou não, foi nessa prova que se sagrou campeão nacional.
“A malta de Pontével já era conhecida como o pessoal da sapatilha, aquilo patinava nas curvas como tudo. Então o Sr. Manuel Nogueira disse-me que tinha lá uns sapatos de bico. Eles estavam duros que sei lá. Aquilo parecia pau! A minha mãe ensebou-os, e lá fui eu todo contente. Até deram nas vistas, a rapaziada metia-se comigo a dizer – Eh! Lá! Sapatinho de bico!”

Decidido e aventureiro, José Calisto marcou a diferença em muitos outros momentos, contados hoje como se de pequenas histórias de ficção se tratassem. Por exemplo, foi por uma amizade que fez a sua vida dar uma volta de 180º. “Fui obrigado a emigrar por causa de um amigo, desertor, mas um grande amigo”.
José Calisto encarou o mandado de captura do amigo Fernando como se fosse seu e não pensou duas vezes em arranjar uma solução. “Aquilo era uma coisa para 10 ou 15 anos de prisão. Então eu disse-lhe – vou trabalhar amanhã, sábado, trago o dinheiro da semana, fazemos as malas e vamos para França”. E assim foi. Disse à mãe que estava a fazer a mala para uma festa de três dias e puseram-se a caminho.
Pediram um carro emprestado a um outro amigo, que, lamenta ainda hoje, acabou por ficar junto à fronteira. “Primeiro fomos até às Termas de Monfortinho, depois para Vilar Formoso, mas aquilo era só guardas fiscais. Por fim, apanhámos a estrada que vai para o Sabugal. Lá perto, vi um pastor que me disse que a Espanha era logo ali ao lado. Esperámos que escurecesse e, de mala na mão, avançámos. Eu disse ao Fernando – se vier a PIDE foges tu, que eu deixo-me apanhar e logo se vê”.
Assim que pôs os pés em França, esteve para mudar de ideias e fazer o caminho de regresso. “Era tanto frio que tive para me vir embora. Mas arranjei logo emprego. Comecei a trabalhar no dia 2 de Novembro. Dezoito graus abaixo de zero. Eu pensei que não ia resistir àquilo!”
Mas resistiu. Gostou dos ares da Normandia. Esteve lá dez anos. Trouxe muito mais do que o que levou. “Vim de lá casado, com mulher, cão, periquito e dois carros”. É então caso para dizer que é “uma história – verídica – e com um final feliz”.
De regresso a Pontével, com outros saberes e experiências na bagagem, José Calisto apostou forte no ramo da restauração. “Mais uma aventura!”. O restaurante “A Charrete” ganhou fama no concelho e na região, devido à qualidade do serviço e à diversidade de pratos confeccionados.
“Quando cá cheguei, há 20 anos, as ementas dos restaurantes não passavam do bacalhau à Ti Manel, das febras de porco e pouco mais. Então eu pensei em criar uma lista de pratos que pudesse atrair clientes, até mesmo de Lisboa. Tinha 20 pratos de caça. Veado, perdiz, faisão, javali, coelho, lebre, etc. Por graça, passei a ter também crocodilo, porque o meu fornecedor comercializava. A carta de vinhos era uma das maiores e melhores do país – 350 vinhos de todas as regiões”.
E porque ter uma casa destas aberta “é uma carga de trabalhos todos os dias” – e porque é um homem de mudanças e não de rotinas – passados 12 anos, José Calisto decide deixar o negócio, vendendo-o no ano de 2002. Há sete anos que o encontramos num pequeno bar, também na vila de Pontével, que abriu “para a malta beber uns copos até às duas da manhã”. Ainda que já sinta “vontade de mudar”, garante que, se tiver saúde, o continuaremos a ver atrás do balcão pelo menos até aos 75 anos.

Mas se há algo que faz mesmo questão de preservar, de não mudar, é seu estado de espírito. Raramente o vêem mal disposto com a vida, ainda que tenha também os seus maus dias. “Às vezes tenho tanta vontade de chorar como de rir. Mas prefiro guardar a má disposição para dentro, só para mim”.
Gosta deste “concelho catita, harmonioso, perto de tudo”, mas onde denota uma certa “falta de espírito vivaço”, onde é preciso abandonar o conceito das “quintinhas”, para permitir alargar horizontes. “Eu costumo dizer que a minha visão está alargada até à Lapónia. Viajar ensina os novos. É disso que as pessoas precisam”.
E nunca é tarde para partir para a aventura, seja ela qual for. O que importa é arriscar. É ir... e voltar.
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