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2010-02-26

Fernando Guapo Ribeiro, na 21.ª edição das Conversas na Taberna
"Eu era o chefe, mas com respeito"

O ensino dominou as Conversas na Taberna do dia 24 de Fevereiro. O professor que foi director do Colégio Marcelino Mesquita durante mais de 50 anos foi convidado a abrir o livro sobre a história deste estabelecimento, considerado uma referência na região.

Se Fernando Guapo Ribeiro tivesse de escolher uma só palavra do imenso vocabulário português para classificar a conduta humana, não hesitaria em apontar a “disciplina”. Este é, aliás, o vocábulo que mais pronuncia quando fala de ensino, das escolas, da juventude.

Professor, formado nas áreas da Física, Química e Matemática, esteve mais de meio século à frente de um dos colégios mais consagrados da região – o Colégio Marcelino Mesquita, situado no Cartaxo. “A disciplina era rígida, o colégio era uma referência. Havia uma selecção de alunos logo à partida, os melhores passaram todos por ali”.

Aos 88 anos, este professor, natural de Portalegre, entristece-se ao olhar para a degradação de uma estrutura que em tempos chegou a acolher 300 alunos. “Quando fechou, em 1999, não apareceu ninguém que quisesse ficar com aquilo. Acabou o Marcelino Mesquita”, diz com amargura.

Mas logo os olhos voltam a ganhar brilho quando diz que “hoje é um festival sempre que encontro antigos alunos. Raparigas e rapazes fazem-me uma festa”. Di-lo como que para afastar a mais remota ideia de que poderia haver autoridade a mais naquele espaço dedicado ao estudo e ao ensino.

“Desempenhámos ali um papel fantástico. Mantivemos o colégio sempre com disciplina um pouco... Eu é que era o chefe, mas com respeito”. Para manter o nível de ensino, Fernando Guapo Ribeiro contou com uma colaboração muito especial – o da sua esposa, professora formada em Histórias Filosóficas. “Foi um bom elemento, ajudou-me a manter aquilo num nível que na nossa região não havia igual”.

Os professores eram uma peça fundamental e, tal como os alunos, “eram escolhidos com cuidado. Tínhamos primor em escolher os melhores. Houve um período em que chegaram a vir cá professores do liceu de Santarém fazerem os exames. Como tínhamos nível, nós é que fazíamos também os exames aos alunos”.

Além do cargo directivo, de que gostava bastante, dedicou grande parte do seu tempo a inventar e a criar. “Fui um inventor de peças para o estúdio dos alunos. Tinha o cuidado de me dedicar. Tínhamos um bom laboratório, que hoje está aqui no Museu. Como era professor de Física e Química, estava mais desperto. As aulas de Física eram dadas como deve ser”.

Na década de 60, criou também “um curso nocturno fantástico. Foi uma novidade aqui no Cartaxo. Os alunos estudavam aqui, mas iam fazer os exames finais à Escola Ferreira Borges, em Lisboa. Veio muita gente, mas acabou em 1991”.

Paralelamente ao estudo, haviam as festas, “uma coisa em grande”, sobretudo no final de cada ano lectivo. E depois isso, as férias. “Tínhamos três meses, um mês era para a casa dos sogros, os outros dois para me dedicar”. Havia ainda tempo para uma semana fora do país, para espairecer. “Assentávamos num hotel de primeira em Espanha, nós lá, naquela altura, éramos ricos”.

Hoje, tudo isso acabou. Mas, além das memórias, há ainda outras coisas que ficam para a posteridade. “Os alunos que por ali passaram são hoje realmente uma prova fantástica do que foi o colégio”. E isso é o que mais importa.



Gabinete de Imagem e Comunicação
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