O Museu Escolar do Concelho do Cartaxo, em Vale da Pinta, acolheu no dia 26 de Novembro, o primeiro de muitos encontros intergeracionais que este espaço museológico pretende organizar.
Faustino José (89 anos), Conceição Sousa (85 anos), Maria Luísa Caetano (70 anos) e José Periquito (63 anos) foram os protagonistas desta primeira edição, convidados a transmitir a vinte crianças da Escola Básica do 1.º ciclo de Vale da Pinta as recordações da escola do seu tempo.
“Era o tempo da batinha branca, dos livros na sacola, e o braço se levantava quando se entrava na escola. E era de pé, com o braço estendido, que se cantava o hino nacional, rezava-se o pai-nosso, dava-se vivas a Portugal. Esta escola tão bonita, com o seu alpendre à entrada, onde os alunos se juntavam, a estudar a tabuada. E das brincadeiras que havia, tal como o jogo da malha, da cabra-cega, o jô e o bom barqueiro, a triste viuvinha e a oliveirinha da serra”.

Foi com estas palavras, ditas em verso, que Maria Luísa, sob o olhar atento dos mais pequenos, resumiu a escola do seu tempo. Quase 60 anos depois, recorda como se fosse hoje a sala de aula, os livros escolares e as brincadeiras. Estas vivências ficaram-lhe de tal forma gravadas na memória, que ainda hoje consegue dizer de cor várias lições que se encontram escritas nos livros da 2.ª e 3.ª classe – algumas delas contadas do início ao fim neste encontro, sem desviar os olhos das crianças.
“Com menos cor e menos bonecos”, como identificaram os mais pequenos, muitos dos cadernos da escola de antigamente estão expostos neste museu, assim como o pequeno quadro de ardósia. Coube a Faustino José explicar às crianças que não era com giz que se escrevia nestes quadros, nem tão pouco havia esponjas para apagar uma letra mal escrita”.
A boa disposição de Faustino José reflecte-se também na música. Para este encontro, trouxe os seus instrumentos mais preciosos: uma harmónica americana, a sua estimada guitarra do Egipto, um par de castanholas e uma gaita-de-foles. Algumas das músicas que marcaram a sua infância foram tocadas aqui, acompanhadas das palmas das crianças.
Além do material escolar e dos jogos, este primeiro encontro tocou também no tema da indisciplina. E foi neste ponto que interveio Conceição Sousa, explicando aos mais pequenos alguns dos castigos impostos pelos professores aos alunos mal comportados.

Na sua memória ficou marcado para sempre o dia em que teve de fazer umas orelhas de burro em cartão. “A professora pôs-me assim à janela e queria que fosse assim também para a rua. Eu só chorava”, lamentou-se. Com os olhos a brilhar de interesse, o pequeno Hélder confortou-se com o facto de hoje apenas ficar sem intervalo quando se porta menos bem. Mas recordou também que a mãe lhe costuma dizer que no seu tempo levava reguadas nas mãos.
No final, Melissa Campino, delegada de turma, agradeceu, em nome de todos, as histórias que ouviram. “Gostámos muito de estar aqui”, concluiu, recebendo de seguida, assim como as restantes crianças, rebuçados num embrulho feito em papel de jornal – como se fazia antigamente, em que não existiam saquinhos de plástico.

Os encontros intergeracionais vão prosseguir na próxima quinta-feira, dia 3 de Dezembro, com outro grupo de crianças. O objectivo do Museu Escolar é promover, duas vezes por mês, esta troca de vivências e experiências entre os mais e menos jovens.
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