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2010-01-29

HENRIQUE SANTOS SILVA, NA 20.ª EDIÇÃO DAS CONVERSAS NA TABERNA

Uma vida cheia de pormenores

Desde as brincadeiras em Cabo Verde, passando pelas vivências académicas de Coimbra e depois pela ruralidade da então vila do Cartaxo, o médico analista Henrique Santos Silva proporcionou uma rica viagem ao passado, no dia 27 de Janeiro, na 20.ª edição das Conversas na Taberna

E se para fazer um simples hemograma fosse necessário uma hora? Se para fazer mais do que meia dúzia de análises à ureia não chegasse um dia de trabalho? Se a penicilina começasse agora a ser integrada nos primeiros fármacos?

São situações que parecem estranhas, perdidas no tempo. Mas não estão assim tão distantes. São do tempo de Henrique Santos Silva, médico analista, que nasceu em Cabo Verde, durante o período em que o seu pai – natural de Pinhel (Guarda) – integrava o grupo de militares portugueses destacados para a ilha.

“Era garoto e recordo-me muito bem dos barcos que paravam para se abastecer. Ao cair da noite corríamos para o porto para os ver sair. Era uma ilha cosmopolita, frequentada por muitos homens da guerra”.

Hoje, com 84 anos, Henrique Santos Silva traz à memória estes seus primeiros anos de vida com um brilho nos olhos. “É uma terra que hoje não conheço”. Está diferente daquela que guarda nas suas recordações, assim como o Cartaxo – que o recebeu nos anos áureos da sua juventude. 



“Quando cá cheguei, o Cartaxo tinha um pequeno hospital, onde é hoje a Santa Casa da Misericórdia, onde estavam dois médicos: o Dr. Ramalho e o Dr. Fragoso de Almeida, que lá iam dando conta do serviço. Além dos médicos de clínica geral, havia também consultas de especialidade. Com o 25 de Abril, fez-se o Centro de Saúde, mas as especialidades deixaram de existir. As pessoas enchem o Hospital de Santarém, sem necessidade. Não sei qual dos sistemas seria melhor!”

A sua sensibilidade para a área da saúde vem-lhe de muito novo, quando decidiu ser farmacêutico. Isso aconteceu nos anos 40, quando a sua família regressou a Pinhel. Matriculou-se em Coimbra, concluindo a licenciatura em Farmácia em cinco anos. “Nos primeiros anos de faculdade, havia uma grande agitação política contra o regime de Salazar. Por todo o lado existiam papéis de propaganda”.

Partilhou a sua vida académica com individualidades como Almeida Santos, Veiga Simão (“grande estudante, que foi depois Assistente da Faculdade”) ou Salgado Zenha (“pessoa muito respeitada”). Depois da licenciatura, veio para o Cartaxo e, aos 30 anos, conheceu uma professora com quem casou e que hoje continua a ser sua mulher.

“O meu pai foi sempre muito cauteloso com os registos. Então, cá no Cartaxo, acabei por me registar como sendo cartaxeiro”. E não se arrepende, pois por aqui permaneceu, trabalhando, dedicando-se à causa da saúde e da solidariedade.



“Preocupa-me o nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS). Ele é necessário e faz falta, porque Portugal é um país pobre – em cada dez portugueses, seis precisam do SNS. Temos também as clínicas privadas, mas não há muita população para pagar. Antes, mesmo os pobres, quando tinham casos graves, ganhavam o suficiente para mandar vir um bom catedrático de Lisboa. Hoje, isso é impossível”.

Os conhecimentos académicos que adquiriu acabaram por ser empregues numa outra área da saúde que não a farmácia. Nunca chegou a trabalhar entre os medicamentos, optando antes pelo laboratório. Tornou-se independente e ainda hoje, com 84 anos, podemos encontrá-lo, logo cedo, no espaço de trabalho que dirige, na principal rua da cidade do Cartaxo. 

Fez milhares de análises laboratoriais e assistiu à galopante evolução da ciência. “Quando cá cheguei, estavam a fazer-se os primeiros testes à penicilina. E ainda me lembro de um avião especial ter ido a Cabo Verde levar um carregamento de penicilina. Foi uma coisa memorável”.

“Um hemograma demorava uma hora a fazer. Hoje faz-se em menos de um minuto, com mais segurança. Seis ureias ocupavam um dia inteiro, eu chegava ao fim do dia completamente cansado. Hoje faz-se 20 ou 30 e não custa nada. Fazer a análise a um ácido úrico era um arco-da-velha”… Ainda que a tecnologia tenha sido o eixo fundamental de toda esta mudança, os métodos manuais “não podem ser colocados de parte”.

Pelas suas mãos passaram também as análises à água do Cartaxo, a pedido da Direcção Geral de Saúde. “Eu analisava a água, que ficava ao pé do cemitério. Já havia o tratamento com o cloro, mas era tudo muito primitivo! Hoje já é tudo automático”.



Sensível às necessidades da terra que o adoptou, é a Henrique Santos Silva a quem se deve a iniciativa da criação do Jardim-de-infância do Cartaxo. Antes, já pertencia à comissão de assistência da autarquia, promovendo campanhas de angariação de roupas e outros bens para os mais necessitados.

Amadureceu a ideia de criar um espaço para os mais pequenos e encontrou no Sr. Painho a forma de a concretizar. “Ele dedicou-se de corpo e alma. Fazíamos peditórios, batíamos à porta de altas individualidades, trouxemos cá vários responsáveis políticos, tudo graças aos conhecimentos do Sr. Painho”.

Marcelo Caetano, Veiga Simão ou Bagão Félix foram algumas das individualidades que visitaram o Cartaxo com o propósito de apoiar a obra do jardim-de-infância. “Algumas pessoas ficavam admiradas por ele conseguir tanto dinheiro para a obra. Foi uma grande obra, que marcou e continua a marcar muita gente”.

Todas as experiências acumuladas ao longo da vida têm enriquecido Henrique Santos Silva. À dinâmica profissional associou a ajuda à comunidade, fruto de uma pró-actividade que, em parte, já nasceu consigo. Esta vontade de construir algo de melhor, de dar importância aos pormenores, de procurar e atingir novos objectivos deve-se, essencialmente, ao desejo de saber sempre mais – e aí, as respostas estão, em grande parte, nos livros.

“Devo ser um dos profissionais que mais revistas da especialidade leio. Fui sempre muito estudioso e ainda hoje estudo – todos os dias”.





Gabinete de Imagem e Comunicação
(+351) 243 700 252 | comunicacao@cm-cartaxo.pt



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