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2011-09-05

Paulo Caldas na 36.ª Conversa na Taberna

“Felizmente consegui atingir os meus objectivos, defendendo sempre aquilo em que acreditava”

Paulo Caldas, presidente da Câmara Municipal do Cartaxo, economista, cartaxeiro de alma e coração, inaugurou no dia 31 de Agosto uma nova etapa das Conversas na Taberna, dedicada à juventude. Após três anos de tertúlias que permitiram retratar mais minuciosamente os ofícios tradicionais e recordar tradições e histórias antigas, o Museu Rural e do Vinho pretende agora dar a voz aos jovens, registando a sua visão sobre o concelho, as suas experiências de vida e expectativas quanto ao futuro.

É conhecido na praça pública como um político ambicioso e determinado, que ao longo dos últimos 12 anos como autarca, quis transformar o concelho do Cartaxo num centro de qualidade de vida, criando infra-estruturas que iam ao encontro das necessidades da população e acessibilidades que “encurtassem a distância” entre este território rural e a grande metrópole, facilitando as vias de comunicação – sociais, culturais e económicas.

Paulo Caldas transporta este espírito activo, por vezes arrojado até, desde que se conhece, percorrendo de bicicleta as ruas de Vila Chã de Ourique, criando novas habilidades nos intervalos da escola, estendendo as brincadeiras com os amigos até ao apelo do jantar.

Neste espaço de tempo que separa os momentos de infância da maturidade dos seus dias, muitas foram as marcas, carregadas de valores, que contribuíram para definir o seu caminho e amadurecer ideais.

O próprio meio em que cresceu foi uma delas. Paulo Caldas nasceu em Moçambique, mas assume-se como um verdadeiro cartaxeiro. Foi a Capital do Vinho que o recebeu a partir dos três anos de idade e, apesar de ter passado vários anos da sua juventude na capital do país e também no estrangeiro, esteve sempre com um “pé grande” no Cartaxo.

“Fui um felizardo em vir para o Cartaxo”, revela, assim como sente uma grande satisfação por ter tido “uma infância muito feliz”. Menino traquinas, destemido e bom aluno – é assim que se descreve, guardando com carinho na memória os bons momentos passados no Jardim de Infância do Cartaxo, no qual prolongou a sua estadia até aos 13 anos.

“Tenho o Jardim de Infância no coração, porque esta instituição tem a grande particularidade de ter ajudado, de uma forma simples e com disciplina, muitas gerações de cartaxeiros, transmitindo valores importantes e alargando os horizontes de todos quantos por lá passaram”.

O jogo do prego, o pião ou o concurso de caricas faziam parte das brincadeiras de qualquer criança dessa altura. Assim como a irreverência própria da idade. “Também saltava aos muros para ir apanhar romãs” – por exemplo.

Frequentou o primeiro ano da Escola Primária em Vila Chã de Ourique, passou pela Escola do Centro do Cartaxo e, depois, pela Escola Secundária. Nunca deixava para depois os trabalhos de casa e sempre cumpriu com os estudos pelo “princípio da excelência”.

Na Escola Secundária, trabalhou para as boas notas, “sem deixar de viver a vida como estudante”. Naquela altura, a escola era como uma família. “Éramos todos diferentes, mas havia uma grande entreajuda. Quem me dera que os jovens de hoje vivessem o que eu vivi”.

Essa diferença foi evoluindo à medida que a sociedade também foi sofrendo as suas mutações. “O espírito de entreajuda merece ser realçado, porque existia quer da parte de quem dirigia a escola, quer dos professores, quer dos alunos. Todos se uniam para atingir os objectivos. Hoje, com uma sociedade mais individualista, foram-se perdendo esses aspectos”.

Não é por isso que considera a sua geração melhor do que as que se seguiram. “As teorias da geração rasca ou da geração à rasca são apenas uma desculpa para não assumirmos a nossa responsabilidade comunitária. Criou-se uma auto-depreciação com a qual eu não concordo”. E acrescenta que “grande parte dos nossos problemas devem-se à falta de auto-estima, que conduz à inveja e à mediocridade”.

Se tivesse de eleger um lema, Paulo Caldas escolheria “cumprir com os objectivos, sem deixar de viver a vida”. Foi isso que procurou fazer também na juventude, quando frequentava o curso de Economia em Lisboa e seleccionava as aulas mais importantes, prescindindo de outras para participar em reuniões gerais de alunos de luta contra as propinas.

“Felizmente consegui atingir os meus objectivos, defendendo sempre aquilo em que acreditava”. E ainda que a vida o tenha encaminhado para situações nas quais teve de tomar decisões sozinho, esteve sempre rodeado de grandes amigos, companheiros tanto na vida pessoal, como na profissional.

E foi para valorizar a sua vertente profissional na área da Economia, mas também para tomar contacto com a realidade além-fronteiras, que aos 20 anos, após terminar a faculdade, decidiu partir um ano para o centro da Europa, aprofundando os seus conhecimentos na Holanda.

Voltou com uma visão diferente da vida e do mundo. Por isso recomenda a todos os jovens que façam o mesmo. “O Programa Leonardo Da Vinci é uma das melhores coisas que se tem feito. Todos os jovens deviam ter a possibilidade de estar seis meses ou um ano fora do país, porque regressam com novas ideias, novos projectos, novos contactos, que valorizam a nossa terra”.

E é esta terra que o viu crescer, que o fez homem, onde constituiu família e à qual dedica todo o seu empenho que lhe dá orgulho. Desde as terras férteis da Lezíria, que em jovem, como tantos outros da sua idade, anos seguidos pisou no decorrer das campanhas de tomate e vindimas; passando pelo cultivo da vinha e pela produção de vinho, que outrora passava como uma herança de pais para filhos, mas que agora “ganhou outra força, outra roupagem”, fruto da “qualidade excepcional” com que muitos vinhos se apresentam no mercado; e o Tejo, que durante séculos foi a via através da qual o vinho chegava às portas de Lisboa, não esquecendo aspectos mais pitorescos, como os convívios na “praia dos tesos” ou os piqueniques à sombra dos salgueiros.

É toda esta riqueza que o concelho possui que torna este território num “importante atractivo turístico, mas que ainda pode ser mais explorado e valorizado”. A paisagem, a gastronomia, o meio rural merecem uma maior projecção, “porque é esta tipicidade que nos diferencia da grande Lisboa. Tão próximos e tão diferentes”. 

Paulo Caldas reúne todas as características de “um bom ribatejano”. Talvez só peque num pequeno aspecto: “nunca fui um homem de touradas. Considero-as um espectáculo bonito, que agrega os valores da terra, do touro e do cavalo, mas nunca fui aficionado”.
Ainda assim, vale a seu favor o facto de nunca faltar à corrida do 1.º de Maio.

Foi também em terras ribatejanas – Azambuja – que encontrou a mulher da sua vida e foi ela quem lhe proporcionou o momento que até hoje mais o marcou: o nascimento da sua filha. O início da sua carreira como autarca, que veio contrariar o caminho que começava a traçar na área internacional da Banca, é também um dos momentos mais marcantes da sua vida.

“Socialista de convicção”, Paulo Caldas preocupa-se com as desigualdades sociais e económicas do nosso país e com as dificuldades financeiras enfrentadas pelas pequenas e médias empresas, “que não têm tido da parte de quem dirige a economia do país os apoios necessários”.

Neste quadro pouco risonho, Paulo Caldas conta com os jovens para que o futuro seja mais profícuo, depositando neles toda a sua confiança. “É nos tempos difíceis que temos de dar o salto. Há um conjunto de gerações que vão ter de dar um grande contributo para que possamos entregar esta terra aos mais jovens, para que eles continuem a promovê-la e valorizá-la”.

A vida como uma roda viva. Carrossel de sonhos, oportunidades, perdas e ganhos. De escolhas e decisões. De renovação e inovação. De emoções.




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