Em Moçambique ganhou, em Moçambique perdeu. Foi em terras africanas que a vida de Maria do Amparo Baioa ganhou um novo rumo, mas tudo acabou por perder. Com a esperança no horizonte, recomeçou tudo de novo no Cartaxo. A história foi contada na primeira pessoa, na última edição das Conversas na Taberna, no dia 25 de Maio.
A palavra “desistir” não entra no dicionário de Maria do Amparo Baioa. Ultimamente, tem sido mais o vocábulo “saudade” que mais lhe apetece pronunciar.
Esta mulher de 67 anos tem ainda na voz o tão característico acento alentejano. Mas não são as planícies a perder de vista que se alcançam do alto da cidade natal de Mértola que a marcaram mais profundamente. Foram antes os ares de África, que apelavam a todos os sentidos – a alegria das festas ao ritmo dos batuques, aquele cheiro intenso a manga, a beleza do pôr-do-sol, o sabor forte da castanha de caju.
Maria do Amparo teve uma infância e uma adolescência “muito boas”. Aos 18 anos começou a namorar e aos 21 casou. Mas não foi aquela festa de casamento com que sonhara. “Foi um casamento por procuração. Eu fui vestida de noiva e houve festa de arromba, mas foi o meu tio que ocupou o lugar do noivo”.
Para a sua avó de 90 anos, o caso deixou-a empertigada, tanto mais que, devido às fraquezas da idade, passou a festa a dizer que achava o noivo parecido com o seu genro e à noite não conseguiu dormir por ver que a neta continuava na sua habitual cama de solteira, sem o marido com quem havia subido ao altar.

Em 1966 decidiu juntar-se ao marido em Moçambique. “Eu nunca tinha atravessado o Tejo, não conhecia Lisboa sequer. Mas foi uma despedida muito bonita e uma viagem que me marcou muito”.
A sua estadia em terras africanas foi melhor ainda. “Tenho muitas saudades. Foram os melhores anos da minha vida. Quantos mais anos passam, mas saudades tenho de Moçambique”.
O marido trabalhava na altura num estabelecimento do irmão e Maria do Amparo trabalhava ao lado dos dois homens, mas não se sentia satisfeita. “Em África só não ganhava dinheiro quem não queria. Dava gosto trabalhar ao balcão”. Isto para quem tinha um negócio por conta própria, porque Maria do Amparo e o marido chegavam ao final do mês sem ver o trabalho ser recompensado.
“Assim que o nosso filho nasceu, eu disse para o meu marido que tínhamos de mudar de vida. Ou nos estabelecíamos por conta própria ou voltávamos para Mértola ou Lisboa”.
Não foi necessário regressar a Portugal, porque com a ajuda do Sr. Carvalho, “um colono antigo e muito rico”, conseguiram montar um negócio. “Passado um ano já não devíamos nada ao Sr. Carvalho. Vendíamos produtos locais – amendoim, algodão, castanha de caju – tínhamos a parte da mercearia e depois roupas, bicicletas, rádios, petróleo”.
Era uma terra “em que um indígena não passava à frente de ninguém para ser atendido ao balcão. Podiam ser analfabetos, mas eram muito respeitadores. Também não se vendia a fiado. Era sempre dinheiro vivo”.
Em Dezembro de 1973, Maria do Amparo e o marido compram passagem para Portugal, para no Verão do ano seguinte virem mostrar o filho à família. “Mas deu-se o 25 de Abril e quando íamos para embarcar o meu cunhado comunicou-nos que já tínhamos a casa toda destruída, inclusive o estabelecimento”.
Já em Portugal, Maria do Amparo ainda pensou em regressar a Moçambique, mas o facto de ter o filho pequeno fê-la pensar duas vezes. “Foi abandonar uma vida e recomeçar outra totalmente diferente”.

Foi então que o seu irmão, que morava no Cartaxo, lhe sugeriu que viessem ver uma casa que estava para trespasse. Fizeram negócio e em Agosto de 1975 passaram a tomar conta da taberna do Porfírio. A casa na altura só servia petiscos e copos de vinho, e Maria do Amparo queria dar-lhe outra dimensão.
“Os primeiros almoços que servi foi aos donos da Nova Gráfica. Foi o começo, a partir daí foi uma linha recta a ganhar clientes”. Almoços, petiscos à tarde e copos de vinho deram um novo movimento à Casa de Pasto – Cervejaria das Conchas.
Maria do Amparo apostava em pratos tradicionais como o bacalhau com grão, dobrada com feijão branco ou vitela à jardineira. E não esquecendo as suas raízes alentejanas, servia também o ensopado de borrego, o cozido à alentejana ou o gaspacho com jaquinzinhos fritos.
Na Feira dos Santos, o movimento então ainda era maior. “Eram dias espectaculares para trabalhar. Vendia-se muito vinho, tínhamos um homem só para encher garrafões. Às 11 horas já tinha o estabelecimento e o quintal cheios e à uma da tarde já não tinha comida para servir”.
“Tenho muito boas recordações desses tempos. As pessoas que frequentavam a casa era tudo gente respeitadora, bons camaradas. As minhas amigas de salão também me davam muita força. Passavam-se ali bons momentos, sem esquecer os noticiários. Contava-se boas a más notícias”.
O seu companheiro de vida deixou-a há dez anos. Maria do Amparo conseguiu superar a morte dele, agarrando-se mais uma vez ao trabalho. “Ganhei coragem e continuei sozinha à frente do estabelecimento”.
Mais uma vez, ultrapassou os obstáculos que cruzaram o seu caminho e retomou a trajectória da sua vida, sem nunca perder a esperança de um dia regressar ao lugar onde foi verdadeiramente feliz. “Os anos de Moçambique não se esquecem. Não gostava de morrer sem lá voltar”.