Manuel Barros fala da sua vida com orgulho, mas sem vaidades – ainda que motivos não lhe faltem para que lhe perdoássemos alguma imodéstia. Mas não. Prefere a humildade, essa postura que enobrece os homens.
Se de uma peça de teatro se tratasse, a vida de Manuel Barros poderia ser dividida em três actos: o vitivinicultor que tudo deve à riqueza da terra; o autarca que contou seis mandatos à frente dos destinos de uma freguesia; o dirigente associativo dinâmico, que criava e “salvava da crise” as instituições locais.
Comecemos pelo primeiro. “Nasci na agricultura. Aos 16 anos tive a infelicidade de ficar sem pai. Fui logo herdado e a partir daí passei a ser um pequeno agricultor”. Estávamos em 1960. Hoje, Manuel Barros, natural da freguesia da Lapa, tem 65 anos.

Nos anos 60 e seguintes, a agricultura prosperava. “Dava gosto viver dela”. O Cartaxo vivia os anos áureos da produção do vinho. “Eu tinha vinho, trigo, milho, feijão, grão. Tudo para consumir em casa ao longo do ano. Hoje, muita gente diz que a agricultura não dava para nada. Para mim, deu para tudo”.
Aos 19 anos casou e, após isso, deixou por três anos as suas terras ao cuidado do sogro para cumprir o serviço militar. Quando regressou, o seu património engrandeceu. “Em meados de 1969 voltei à agricultura. O meu sogro devolveu-me o que era meu e tudo o que era dele. Assumi e a vida foi evoluindo”.
Durante 25 anos, Manuel Barros teve também uma pequena mercearia com taberna, que deixou nas mãos da esposa. Era “um part-time que entretinha a esposa” e criava entretenimento na povoação. “De manhã, os homens vinham matar o bicho. À noite, depois das duras horas passadas no campo, vinham beber a sua cigana. Quando o horário mudava e eles passavam a ter duas horas para a sesta, vinham também beber o seu copito”.
A sua forte ligação ao cultivo da terra e a sua experiência na produção de vinho fez dele um especialista em matérias de enologia. Tanto é que foi convidado no início da década de 70 para ser comissário de vinhos de uma das maiores e mais importantes casas vinícolas da região: as Caves D. Teodósio.
“Comprava naquele tempo vinhos a granel a pequenos produtores na ordem dos dois milhões de litros. Eram comprados a produtores da zona de Manique, Maçussa, Casal de Além, Vila Chã de Ourique, Vila Nova de S. Pedro, Lapa. Nos anos 90 as Caves D. Teodósio foram vendidas ao Cruz e Companhia, e como a região não se identificava muito com ele, porque até chegava a enganar os produtores no grau, não quis trabalhar com ele”.

Outra grande casa o acolheu – os Bernardinos e Carvalho, na qual ainda hoje é comissário. “Há 12 anos que trabalho com eles e é uma casa que continua a esgotar os vinhos a granel dos produtores”.
Com a redução do preço do vinho, os pequenos produtores começaram a fazer contas à vida e a produção no concelho, assim como um pouco por toda a parte, tem vindo a baixar. “A zona onde se consegue comprar mais vinho é a Lapa e Vila Chã de Ourique. Há 15 ou 20 anos, o vinho vendia-se a 30 e tal cêntimos. Agora dão-me autorização para não comprar acima dos 33 cêntimos. Neste momento ainda compro cerca de um milhão e 200 e tal mil litros, mas já lá vai a altura em que dava gosto ser agricultor”.
E foi ainda nesses tempos em que a agricultura significava rentabilidade que Manuel Barros abraçou outra grande causa. “Fui o primeiro presidente de Junta na freguesia da Lapa eleito democraticamente, em 1976. Até aí as pessoas eram convidadas para o cargo”.
Fez três mandatos consecutivos, depois saiu, porque “nunca gostei de me viciar nos cargos. Estamos a viciar os outros e a nós próprios”. Abandonou a política durante quatro anos e regressou, para mais dois mandatos. Saiu novamente, regressando à Junta de Freguesia mais uma vez.
“Foram mandatos com maiorias absolutíssimas. Eu só me candidatava porque sabia que as pessoas tinham confiança em mim e eu confiava no eleitorado. Foram 21 anos na Junta, não estou arrependido e a acredito que as pessoas também não se arrependem de me ter tido como presidente”.
No “intervalo da política”, dava o seu tempo às colectividades. Em 1984 tomou a iniciativa de fundar o Rancho Folclórico da Lapa, com João Herculano. “Não havia subsídios, hoje se calhar há subsídios a mais. Mas dava gosto estar à frente de uma associação. Hoje perde-se muito o ritmo, antes não se perdia e havia mais voluntariado”.

Só os trajes para o rancho custaram à então recém-criada colectividade 900 contos, mas “quando os dançarinos estrearam os fatos, já estava tudo liquidado”.
Manuel Barros tomava os punhos das iniciativas, e depois saía, deixando a obra nas boas mãos dos seus conterrâneos. Foi assim com o Rancho, e foi assim com a Banda. “Numa altura em que a banda estava em risco, fui também presidente. Eu acudia nas crises que surgiam e depois saía”.
Deixou também a política com um sentimento de dever cumprido e com o orgulho de, nos seus últimos anos de autarca, ter conseguido concretizar uma obra que foi sempre a sua ambição: o Centro de Dia.
O terreno foi doado à Junta de Freguesia pelo casal Luís Leonardo Bento e Francelina Garrido. Manuel Barros criou uma Comissão de Obras e o Centro de Dia nasceu. “Foi sempre uma ambição minha, e para lá caminho!”. Primeiro teve o cargo de presidente da Assembleia Geral e há ano e meio que assumiu o cargo de presidente da direcção.
Graças à sua humildade, Manuel Barros reparte o sucesso das suas conquistas com outros companheiros de causas. “Não podemos fazer só o que a nossa cabeça manda, temos de ouvir também o que outras cabeças pensam”. Venham de lá então essas ideias, porque ideias de mais nunca fizeram mal a ninguém…