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2010-08-30

SILVINO XARANA, NA 26.ª EDIÇÃO DAS CONVERSAS NA TABERNA

Histórias de um rio que tudo leva e tudo traz

O pescador Silvino Xarana sentou-se à mesa da taberna do Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo, no dia 26 de Agosto, e recordou o tempo em que era no rio Tejo que muitos encontravam o seu meio de subsistência.

O Tejo era o seu mundo. O barco a sua casa. O peixe o seu sustento. Vivia-se assim nas águas calmas da Vala Real e do Rio Tejo, deslizando ao sabor do tempo, sentindo uma quietude que apaziguava a alma e os sentidos.

Eram águas que acolhiam a força dos homens e escondiam no seu manto esverdeado uma imensidão de seres, que vagueavam ao ritmo da corrente. Eram águas que levavam e traziam. Que davam sorte e azar.



Os seus segredos, Silvino Xarana conhece-os bem. Desde tenra idade que as águas da Vala Real e do Tejo fazem parte de si. Recebeu os sábios ensinamentos da arte piscatória no seio da sua família – os quais guarda só para si, não por egoísmo, mas por não ter a quem os transmitir.

Este homem, neto de avieiro e filho de pescador, tem hoje 71 anos. Nasceu à borda de água, na freguesia ribeirinha de Valada. “Mais espigadito”, foi para o Reguengo, onde passou a viver com a Vala Real aos pés.

“Cheguei a andar em Lisboa nas fragatas, nos batelões, mas ganhava-se pouco. A minha tendência era a pesca. E foi a isso que me dediquei até casar”. Casou com uma jovem de Vale Figueira, ainda antes de ir à Inspecção. E foi através do tio Manuel, que fazia barcos, que a conheceu. Foi uma bela festa de casamento, que durou três dias, à borda de água, na Barreira da Bica, em Vale Figueira.

Era em Março/Abril que os homens se despediam da terra. A bordo da sua “outra casa”, seguiam pelo canal da Vala Real a fora, desembocando no rio Tejo. Permaneciam por essas águas durante semanas a fio, sem regressarem ao Reguengo. “Era o tempo da saboga, do sável e da lampreia. Íamos até Vila Nova da Rainha, Vila Franca de Xira. Fazíamos aí as safras”.



“O barco era a nossa casa. Andávamos aí uns quatro meses, sem regressar a casa. Aí dormíamos e comíamos”. Eram as suas mulheres que completavam este ciclo. “Elas iam no comboio ter connosco ao Carregado, Vila Nova da Rainha ou Vila Franca para trazerem o peixe. Iam vendê-lo à praça do Cartaxo. Apanhavam a carreira no Setil para o Cartaxo e no regresso, como já não havia transporte para o Setil, iam de camioneta para a Cruz do Campo. Depois era a pé até casa”.

As primeiras chuvas ditavam um novo sinal. Era a chegada da enguia. “Nessa altura pescávamos mais na nossa zona. Quanto mais as águas do rio subissem, mais enguias apanhávamos. As redes estavam sempre armadas”. As águas eram também um bom habitat para o camarão. Silvino lembra-se de, em plenos anos 70, chegar a apanhar 14 quilos de camarão.

Mas foi uma riqueza que se perdeu alguns anos depois. “Antigamente, nesta altura já andava na pesca do camarão. Depois a Vala começou a não dar. O país desenvolveu-se e isso trouxe a poluição. Mas a morte do sável na foi a poluição, foi a barragem de Belver. Porque o peixe, em Abril/Maio, arribava pelo Tejo acima, se não tivesse lá a barragem, ele ia lá desovar e voltava para o mar, para depois no outro ano voltar a dar criação. Assim, acabou”.

Os finais dos anos 70 imprimiram também mudanças nas embarcações piscatórias. Silvino ainda se recorda que em 1979 ainda se pescava em barcos com vela. E que nessa altura eram três os barcos do Reguengo a pescar nas águas do Tejo.

O ano de 1979 está gravado na memória, não só dos pescadores, mas de todos os que moram na zona ribeirinha, por outros motivos. Foi o ano em que as águas do rio atingiram o nível mais elevado, provocando umas cheias que para sempre hão-de marcar as gentes da lezíria.

“Fomos nós, juntamente com os Fuzileiros, que assegurámos o transporte das pessoas e das suas coisas. Foram momentos de muito sofrimento”.

As águas que geravam alegrias, eram as mesmas que provocavam tristezas. Quantas vidas não foram roubadas pelo rio… Silvino conhece algumas. Mas ele, felizmente, nunca apanhou nenhum susto. “O barco é pequeno, mas a habilidade conta muito”.

Mas nem só da pesca viveu este cartaxeiro. Ainda nas águas da Vala Real e do Tejo, Silvino chegou a trabalhar nas embarcações que faziam chegar o vinho do Cartaxo às tabernas de Lisboa; no transporte das sacas do enxofre e dos adubos, embarcadas no Barreiro e descarregadas em Santana; e no desembarque das sacas do arroz no Reguengo, que aí ficava para o descasque, na fábrica existente junto à Vala.

O trabalho era duro e o rendimento incerto. Por isso, aos 29 anos, começou a trabalhar na Epal. “Foi a minha sorte. Um grande passo que dei na vida. Era dinheiro certo”. Esteve lá 32 anos, mas nunca abandonou “a arte”, ainda que hoje esta arte seja mais uma teimosia que faz por gosto, do que por necessidade.

“Não há mais ninguém que siga. Também ninguém pode viver só da pesca”. Já outros, não podem viver sem ela. Que o diga Silvino Xarana.



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