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2010-05-28

SIMPLESMENTE VITOR VARELA

Nesta 24ª edição das "Conversas na Taberna", Vitor Varela, director/coordenador do Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo, sentou-se à mesa no dia 26 de Maio, desta vez como convidado

“O presente não se constrói sem o passado, e o futuro só com o passado e o presente se alcança”. Esta é uma das frases preferidas de Vitor Varela, e é nela que encaminha a sua vida e a devoção ao trabalho que desenvolve.

Inspirado nesta expressão, divide os seus 62 anos de vida em três fases. Vida em Lisboa, vida em Moçambique e, por fim, a vida no Cartaxo.

Nascido em 1948, sentiu ainda os reflexos da conturbada II Guerra Mundial. “Apesar de miúdo, lembro-me que se sentiam algumas dificuldades em minha casa. Um chicharro - na altura o peixe mais barato que se comprava - tinha que dar para dois ou três. O melhor que nos acontecia era comer fressura e bofe em alguns fins-de-semana”, diz.

Foi na capital - mais propriamente nos Anjos onde nasceu e cresceu - que cedo se familiarizou com o tão afamado vinho do Cartaxo. “Era uma zona de tabernas e tascas que o meu pai frequentava com regularidade, e lembro-me bem de o ouvir falar sobre o famoso néctar”. Nessa altura, ainda nada fazia prever que a sua vida passaria por esse concelho vitivinícola.



Completou a 4ª classe na escola nº. 6, conhecida como a escola do Ultramar, onde fez o exame de admissão para o Liceu Camões. Aos 10 anos, ingressou na Mocidade Portuguesa. “Puseram-me a trabalhar no gabinete da Mocidade e deram-me uma máquina de escrever mecânica. Tenho a impressão que foi aí que se traçou o meu destino na área administrativa que nunca mais larguei”.

Aos 15 anos resolveu abandonar os estudos, decisão que lhe valeu um “tabefe” do pai, que lhe garantiu que se quisesse ir trabalhar teria que ser ele mesmo a procurar emprego.

Não se deixou levar pela ameaça. Recusando baixar os braços, começou a laborar como paquete numa empresa de construção imobiliária, e logo depois num escritório de importação e exportação de borracha, onde ficou durante quatro anos até ser chamado a assentar praça, em Elvas.

Iniciou-se então aquele que viria a ser um longo percurso na vida de Vitor: a actividade militar.

Foi mobilizado para o Porto, onde trabalhou nas transmissões e fez o curso de Radiotelegrafista. Mais tarde, mudou-se para o Entroncamento. Trabalhou no Gabinete de Estudos e ficou em primeiro lugar no curso de reabastecimento de material. “Ficávamos um mês no quartel e outro mês em casa. Quando ia tirar o meu primeiro mês de férias, chamaram-me ao Gabinete de Estudos. Mobilizaram-me para Moçambique”.

Nem lhe passou pela cabeça opor-se, e o facto de ter família na antiga colónia portuguesa fê-lo embarcar para aquela que define agora como a segunda parte da sua vida.

Lá, acabou por casar e ter dois filhos gémeos. Mas, em 1975 a vida tornava-se complicada em terras africanas. “Não havia dinheiro para comprar comida, e eu tinha uma família para sustentar”, motivo que o fez voltar a Portugal.



Sem emprego, tentou a sua sorte por terras ribatejanas. “Tinha família na zona de Santarém e resolvi procurar trabalho por lá”. Acabou por ficar no escritório de um primo seu que tinha um negócio de automóveis, e em 1977 surgiu uma vaga na Santa Casa da Misericórdia do Cartaxo para a qual concorreu, iniciando assim a terceira fase da sua vida.

Em 1980 fundou o Núcleo da Cruz Vermelha do Cartaxo, de que ainda hoje é sócio número um. “Orgulho-me de dizer que estabelecemos um contrato que ainda agora permanece: os nossos médicos podiam passar receitas da caixa”.

Entrou na Câmara Municipal do Cartaxo, presidida por Renato Campos, em Dezembro de 1982, e já com um terceiro filho e a viver o segundo casamento. Foi nessa altura que começou a ouvir falar da criação da Quinta das Pratas e do Museu Rural e do Vinho, fortemente impulsionado e dinamizado pela Dra. Maria José Campos.

Conheceu o antropólogo José Eduardo da Silva e a D. Cecília Barbosa, que lhe apresentou António Nabais, museólogo. Juntos, iniciaram então o projecto do Museu. “Visitámos adegas e agricultores e tentámos reunir o material essencial para o montar, por exemplo, o que está nesta taberna foi quase tudo cedido por pessoas. A única peça adquirida foi o balcão”, afirma.

Recorda com nostalgia e carinho figuras marcantes do concelho como o Zéquinha dos Jornais ou o Zé dos Tremoços que vendia sorvetes, bem como as tabernas e tascas que abundavam no Cartaxo. “Era efectivamente uma terra de vinho. Até nos cafés as senhoras da alta sociedade bebiam o vinho servido em bules de chá”.

A extinção desta identidade vitivinícola é algo que o deixa desgostoso, e revela o seu sonho: “se eu ganhasse o Euro Milhões fazia uma taberna. Igual a esta, que me diz muito!”.

Relembra o que lá vai, e não esquece os funcionários do Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo brindando-os com um sentido agradecimento. “Não é por nós, é pela sociedade”. Simplesmente Vitor Varela…


Gabinete de Imagem e Comunicação
(+351) 243 700 252 | comunicacao@cm-cartaxo.pt



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