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2010-04-30

LUÍS RAMOS - O "REI" DOS JOANICAS


O único armazenista de vinhos do concelho do Cartaxo foi o convidado da 23.ª edição das Conversas na Taberna. Luís Ramos, de 82 anos, foi ao longo de mais de 50 anos um dos grandes impulsionadores dos Joanicas e a ele se deve a qualidade que sempre prestigiou os néctares desta sociedade.

É ao vinho que Luís Ramos deve muitas das grandes emoções da sua vida. Para este homem, o néctar de que falamos significa mais do que uma marca de um concelho, mais do que uma presença assídua numa mesa, mais do que a principal fonte de um negócio que ajudou a construir e a fazer crescer. Para este homem, o vinho significa qualidade, significa luta constante, significa vitória.

Luís Ramos, de 82 anos, é hoje o único armazenista do concelho do Cartaxo. E o que mais o preocupa neste momento “é ver que a juventude não entra na vida dos vinhos. E a comercialização vê-se, por exemplo, nos livros das promoções da semana – vinho espanhol: leve seis, pague quatro”.

O gosto pelos produtos da terra herdou-o da família. Desde pequeno que foi envolvido nos trabalhos do campo – nas férias do Natal, o pai introduzia-o na poda das vinhas; nas férias da Páscoa, as suas delicadas mãos tornavam-se ásperas pelo uso da enxada nas tarefas da cava.



“Aprendi todos os serviços da agricultura. Uma vez ganhei um yo-yo por andar a tirar as ervas das favas. E lembro-me de outra vez em que eu e o meu pai cavámos uma vinha inteira em dois dias e meio. Agora, nas horas vagas, vou para a minha horta, tenho alfaces, favas, feijão. Gosto de ter aquelas coisas criadas por mim”.

Não foi dos alunos mais brilhantes da escola, mas sempre esteve entre os melhores especialistas de vinho do concelho. Os pais conseguiram pagar-lhe os estudos no Colégio Marcelino Mesquita com o dinheiro que recebiam aquando da venda do vinho. “Cem escudos no primeiro ano, cento e vinte no segundo, cento e quarenta no terceiro e cento e sessenta no quarto. Um aumento de vinte escudos por ano era muito, naquela altura”.

Era o campo que dava sustento a muitas famílias. Além de produtor de vinho, o seu pai era reconhecido localmente como “um bom gadanheiro. Ele ganhava trinta escudos por dia a ceifar com uma gadanha, enquanto outros só ganhavam dez. Era um trabalho muito bem pago”.

Quando acabou o curso, aos 16/17 anos, Luís Ramos trabalhou uns tempos numa caldeira de destilação de aguardente, na Avenida João de Deus, a ganhar mil réis. Depois, foi para o Grémio da Lavoura e posteriormente, arranjou trabalho em Lisboa, por intermédio de um tio, como ajudante de despachante no transporte de militares. “Ganhava um conto de réis por dia, era um ordenadão”.

Regressou entretanto ao Cartaxo, ficando novamente a trabalhar no Grémio da Lavoura. Como dactilografava rápido e bem, respondeu a um anúncio da Câmara Municipal. Foi o único concorrente e entrou para a instituição. Mais tarde, com o falecimento do sogro, Luís Ramos acabou por solicitar uma licença ilimitada à autarquia, para exercer funções na sociedade Joanicas do Cartaxo. 

Tornou-se um especialista dos vinhos, na comercialização e na produção. Muitos dos prémios atribuídos a vinhos da sociedade Joanicas a ele se devem. E se as memórias forem curtas, a imprensa é testemunha desse sucesso. Por exemplo, a edição do Diário de Notícias de 9 de Outubro de 1993 dedica uma página aos néctares Joanicas, designadamente ao Cabernet Sauvignon, merecedor de um primeiro prémio nacional. Já O Povo do Cartaxo, na sua edição de 6 de Julho de 1995, designa Luís Ramos como “um dos melhores narizes nacionais para o vinho”.

“Nunca alinhámos em comprar vinhos baratos, porque desprestigiavam o nome do Cartaxo. Junto dos pequenos produtores tinha sempre a porta aberta. E ia também a Palmela, a Almeirim, ao Alentejo. Onde eu descobria um vinho bom, eu comprava, mesmo se fosse caro. Os produtores tinham gosto em vender aos Joanicas. Eu arranjava um conjunto de vinhos de excelente qualidade e combinava-os. Por vezes eram melhores juntos que sozinhos. E a verdade é que quando os vinhos andavam em baixo de forma, nos anos 80, nós continuávamos a ganhar prémios”.

Não tirou curso, mas fazia o papel de enólogo. “Provava o vinho, às vezes não estava bebível, mas eu idealizava e via que com o calor e o tempo ia ser um óptimo vinho”. Até hoje nunca se enganou. “Talvez tenha uma intuição”.

Talvez tenha sido essa intuição que o levou a apostar na sua “menina dos olhos bonitos” – a Aguardente Rainha dos Joanicas. É a história que está por trás da criação da marca desta aguardente que Luís Ramos elege como um dos episódios mais intensos da sua vida na sociedade Joanicas.

Comprou dez cascos de aguardente no Bombarral, “para experimentar” e o sucesso foi logo imediato. Os maiores problemas surgiram no registo da marca. “A Junta do Vinho não aceitava o nome, mas o que nós queríamos dizer era que esta aguardente era a rainha dos Joanicas, não a rainha de todas as aguardentes. A Junta não aceitava e então pus um advogado contra a Junta – foi um risco muito grande, porque era a Junta que fiscalizava os armazenistas – mas ganhei a causa”.

Aqui, como noutras batalhas, Luís Ramos tem sido “um grande lutador”. E o Cartaxo agradece.










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