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2011-12-05

Marco Chagas na 39.ª Conversa na Taberna
A vitória veste-se de amarelo

O ciclista Marco Chagas, quatro vezes vencedor da Volta a Portugal, foi o convidado da edição n.º 39 das Conversas da Taberna, que se realizou no dia 30 de Novembro. Uma vida dedicada à modalidade e recheada de vitórias – foram 74 os títulos conquistados pelo ciclista natural de Pontével.

Há 50 anos, o Natal não era propriamente sinónimo de um sapatinho carregado de presentes. O homem das barbas brancas era um conceito que vagueava apenas no imaginário de alguns e que, ainda assim, satisfazia os desejos de uma pequena minoria das crianças. Hoje tudo é diferente. O Pai Natal não tem mãos a medir, tal é a quantidade de moradas que constam no roteiro do trenó na noite de consoada. 

De todos os Natais, há sempre um ou outro que se torna mais especial. O de Marco Chagas foi o de 1962, quando na manhã do dia de Natal ficou com um brilhozinho nos olhos ao ver uma bicicleta na enorme lareira antiga. “Foi a melhor prenda que tive até hoje. Um momento tão marcante que guardo para sempre”.

Há momentos mágicos assim, que perduram uma vida inteira. Aquele veio reforçar uma paixão que alimentava desde os 4 anos e que o levou a concretizar muitos dos seus sonhos. “O meu tio, irmão da minha mãe, foi quem me transmitiu o bichinho das bicicletas. Ele era ciclista do Benfica e em 1960 participou nos Jogos Olímpicos de Roma, foi um dos poucos olímpicos do concelho do Cartaxo”.

Aquela bicicleta que o pai comprou em segunda mão, restaurou e lhe ofereceu no Natal veio preencher a sua vida de criança. Aos 10 anos o pai ofereceu-lhe outra bicicleta, um pouco maior, que utilizava regularmente para as suas deslocações entre a terra natal de Pontével e o Cartaxo, onde viveu com a família dois anos.

A sua infância ficou também marcada por outra paixão: o folclore. Entre os 5 e os 15 anos dançou no Rancho Folclórico do Cartaxo. As suas deslocações para os ensaios à noite, na então vila do Cartaxo, fazia-as igualmente de bicicleta, na companhia do pai.

Com 14 anos, as suas aspirações relativamente à bicicleta ultrapassavam largamente o simples gosto de pedalar e o conceito de “veículo de transporte”. Os primeiros passos no ciclismo foram dados por essa altura, em cima de uma nova bicicleta. Com a ajuda do pai, comprou outra aos 16 anos, usada, que custou quatro contos, “uma fortuna para a época”. Começou a ganhar títulos. O primeiro tinha 17 anos e foi campeão de fundo.

Mas é preciso dizer que outros projectos de vida passaram pela cabeça do adolescente Marco Chagas. Após ter concluído o 6.º ano de escolaridade, trabalhou com o fotógrafo Sr. Cunha, no Cartaxo. Foi depois ajudante de serralheiro, na Moali. “Uma boa aprendizagem e uma escola de vida”, face à “rigidez da empresa” e dureza do trabalho. “Vinha de bicicleta para o Cartaxo logo cedo, porque entrava às 7h30. O trabalho era duro, foi um período difícil, mas particularmente interessante”.

“Mas o que eu mais gostava era ser electricista”. Conseguiu então trabalho como ajudante do Sr. Calvário, que foi o seu “grande mestre”.

Voltando à área na qual se afirmou verdadeiramente, Marco Chagas começou a correr em Pontével, vestindo a camisola da Casa do Povo, em 1972/73. De campeão distrital a vice-campeão nacional foi um pequeno salto. “Comecei a despertar a curiosidade de pessoas dos clubes”. E teve de optar entre representar o seu clube do coração, o Sporting, ou o rival Benfica.

Vestiu de facto a camisola vermelha, na altura em que Francisco Valada era treinador. Com o apoio do grande sportinguista Victor Matias, foi depois para o Sporting. “Aos 17 anos já era ciclista federado, mas os anos de 1974 e 75 foram complicados para quem pensava fazer uma carreira no desporto”.

O ciclismo no Sporting acabou, quebrando as expectativas de jovens ciclistas como Marco Chagas. “Com 18, 19 anos conseguimos ultrapassar as dificuldades, trabalhando muito. Levantava-me às 6 da manhã e ia treinar. Consegui depois atingir o meu primeiro objectivo em 1976, com muitas dificuldades, e participar na Volta a Portugal. Consegui o 6.º lugar. As vitórias foram conseguidas sempre com muito trabalho”.

Nessa fase difícil do ciclismo em Portugal, Marco Chagas teve também uma boa experiência na pequena equipa Costa do Sol, formada em Abóboda por um senhor que tinha uma oficina de bate-chapas, e da qual Marco Chagas guarda boas recordações. “Pedimos dois contos, ele ofereceu quatro. Só pagou dois meses, mas estivemos lá um ano. Foi um trampolim para a carreira”.

Marco Chagas participou em inúmeras provas na zona leste, como a Volta à Bulgária, com 18 anos e, dois anos depois, na Corrida da Paz – República Checa, República Democrática Alemã e Polónia. Em 1980, Marco Chagas treinou ainda durante um ano em França.

Os anos 80 foram de ouro para o ciclista do concelho do Cartaxo. Ganhou quatro Voltas a Portugal – em 1982, 1983, 1985 e 1986 – e venceu muitas outras corridas, entre as quais a Volta à África do Sul e a Volta da Independência do Brasil, contando 74 vitórias na carreira.

Marco Chagas casou em 1979 e com 22 anos foi pai. A sua primeira mulher era filha de proprietários de uma taberna em Pontével, pelo que Marco Chagas, ainda que não tivesse o hábito de frequentar estes espaços, porque não bebia vinho, acabava por passar aí algumas tardes de domingo.

“Agradava-me sobretudo o tipo de conversas das pessoas, a sua maneira de falar, as histórias que contavam. Lembrava-me muito os meus avós. É pena que algumas dessas características se vão perdendo”.

Marco Chagas correu até 1990, ano em que decidiu abandonar as corridas. Hoje, lamenta que a sua opção pela carreira no ciclismo o tivesse tornado uma pessoa ausente da sua terra e da sua família. Não teve oportunidade de acompanhar de perto o crescimento da filha, por exemplo. Mas foram “ossos do ofício”.

“Não estou arrependido”. Nem de ter feito carreira no desporto, nem de lhe ter colocado um ponto final. “Faltava-me motivação para treinar. Porque correr é fácil, treinar é que é mais difícil”.


Mas o mundo das bicicletas continuou e continua a ser o seu. Teve uma experiência de cinco anos como treinador, é comentador da modalidade na RTP, é praticante de bicicleta de montanha e acaba de criar um clube de ciclismo, fundado no dia em que completou 55 anos de idade – 19 de Novembro.

Com a estrada da vida à sua frente, há pessoas que não conseguem ser de outra forma do que elas próprias. Coerentes, sonhadoras e vencedoras. Não pertencessem elas a uma terra triunfadora na modalidade que preenche o seu coração – os ciclistas do Cartaxo continuam a ser os que detêm o maior número de vitórias na Volta a Portugal.




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