Luísa Pato, natural do Cartaxo, engenheira civil de profissão, que ao longo dos anos tem desempenhado um papel de relevo na vida comunitária do concelho, pelo seu trabalho como autarca e como dirigente de uma instituição de solidariedade social, foi a convidada da 37.ª Conversa na Taberna, que decorreu no dia 28 de Setembro, no Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo.
De menina grande a grande mulher. A distância é curta. Luísa Pato foi uma menina acarinhada e boa aluna. Foi uma jovem irreverente e lutadora. Hoje é uma mulher afortunada. Por ter causas para defender, por acreditar nos sonhos e nas pessoas que a rodeiam. Continua com “um grande mau feitio”, mas em contrapartida, não perdeu a alegria e a espontaneidade.
Luísa Pato é natural do Cartaxo. Nasceu em casa, com 5,6 kg – uma “menina grande” que à nascença foi “atirada para uma gaveta” enquanto a parteira atendia a mãe. Teve uma infância “pacífica”, vivida na periferia da então vila do Cartaxo. As ruas não eram alcatroadas, nem muito movimentadas. Eram elas o palco das principais brincadeiras.
Frequentou o Colégio Marcelino Mesquita com distinção. A mudança para o liceu de Santarém “foi brusca”, porque “aqui era uma menina acarinhada, do quadro de honra, e no liceu passei a ser uma desconhecida no meio de tantas outras”.

Mas continuou a ser uma boa aluna. Fez o 7.º ano sem ir a exame e fez greve em 1975, quando o Governo quis passar a média de 12 para 17 para a dispensa das orais. No Instituto Superior Técnico de Lisboa, ingressou no curso de Engenharia Civil, uma área que já lhe era familiar, não tivesse sido o seu pai um dos grandes impulsionadores da construção civil no concelho.
Os tempos vividos na capital do país marcaram a sua juventude. “Não estudava muito e divertia-me imenso. Conheci gente belíssima e hoje sinto saudades dos tempos em que fazíamos directas”. Como aproveitou ao máximo os seus tempos de juventude, hoje compreende melhor os seus filhos. “Eles não fazem nada que eu não tenha feito na altura, ainda que com menos excessos”.
Em casa, é uma mulher entre homens. Casou ainda antes de terminar o curso e teve três filhos. Considera-se uma pessoa afortunada, em parte, pelas boas memórias que guarda do que viveu. “O maior património da nossa vida são as recordações”.
Decidiu acabar o curso aos 32 anos e entrou para a empresa do pai, com quem aprendeu muito. Foi também pela mão do seu pai que começou a frequentar a Santa Casa da Misericórdia do Cartaxo e hoje faz parte dos órgãos sociais desta instituição.
“Dá-me muito prazer participar na gestão desta instituição. Sou uma mulher de lutas, gosto de ter causas para defender”.
A política foi outra área que abraçou. Primeiro na Junta de Freguesia do Cartaxo, depois na Assembleia Municipal, Câmara Municipal – onde foi vereadora –, e agora mais uma vez enquanto membro da Assembleia Municipal.
Mas, assume, “estou na política em estilo de pré-reforma. A política é saudável desde que haja mudanças, caso contrário, habituamo-nos a minorar alguns problemas. Nessa altura, é o momento de sair”.
Reconhece o seu mau feitio. Quando os humores não são os melhores, as pessoas que lhe são mais próximas permitem que fale à vontade e adiam a conversa para o dia seguinte. É igualmente uma pessoa alegre, que tenta sempre encontrar o lado positivo, mesmo das piores situações.

“Eu era a única que conseguia contar um desgosto de amor a rir. É muito bom quando nos sabemos rir de nós mesmos. Temos de nos rir das nossas próprias desgraças antes dos outros o fazerem. Isso é muito saudável. E se procurarmos bem, em tudo de mal que nos acontece, encontramos sempre algo de bom”.
Se não encontrarmos, a dança pode ser uma boa opção para esquecer os problemas. Pelo menos na Santa Casa da Misericórdia, Luísa Pato constata que a música é uma das artes “que mais mexe com os idosos”, que faz renascer neles sentimentos de alegria.
Luísa Pato adora dançar, embora pertença a uma geração “em que os rapazes deixaram de saber dançar. No pós-25 de Abril, era foleiro dançar. Felizmente hoje os jovens já não têm esse estigma”.
Talvez Luísa Pato tenha herdado esse gosto, porque o seu avô materno, feitor de quintas, era dançarino, sendo muitas vezes convidado pelos patrões para dançar nas suas festas. A sua mãe “também dançava muito bem”. Já o seu marido, não tem muita queda para a dança, mas também não se importa que Luísa Pato arranje par.
Sendo “uma pessoa da terra”, acha o folclore “lindíssimo”, é adepta das touradas e gosta de um bom vinho à refeição. Sente-se bem nesta terra de tradições e de gente ainda muito ligada ao mundo rural.
Também ela quer manter essa ligação, com pequenas atitudes como a de ter uma horta. Só a chateia ter de se cruzar todos os dias com “um pequeno inimigo”. É que Luísa Pato tem uma outra particularidade, que nasceu com ela e a tem acompanhado ao longo da sua vida, motivando peripécias e algumas graças – a fobia pelos moluscos gastrópodes terrestres de concha espiralada calcária… mais conhecidos por caracóis.