Quando se dá a hora da partida, cada um segue o seu caminho. Rafael Periquito tem o seu trilho já bem traçado. Sabe de cor o que fazer, sem que os sentimentos o assolem. Os anos dedicados a levar os que partem até à sua última morada fazem deste momento – para tantos difícil de enfrentar – uma prática comum, uma rotina de trabalho.
“O negócio houve sempre em casa desde que eu nasci. Tínhamos uma carreta, que ardeu no primeiro fogo da serração. Quando a marcenaria começou a cair, começou a funerária a subir”.
Era a mãe de Rafael Periquito que forrava cuidadosamente os caixões, inicialmente feitos na serração da família. Desde pequeno que em casa se lidava com a arte de trabalhar as madeiras e com a morte dos outros.
Mas houve desgraças que também lhes bateram à porta. “Na noite seguinte após completar os meus 20 anos, ardeu a serração. Começou aí um ciclo difícil, que piorou quatro anos mais tarde, com o segundo incêndio”.
O pai tinha uma serração e uma oficina com operários de marcenaria e carpinteiros. “Logo rapazito, comecei a aprender a estufar. Eu queria era trabalhar, mas o meu pai não queria que eu trabalhasse sem antes estudar. Era teimoso, queria que eu fosse alguma coisa na vida”. Acabou por lhe fazer a vontade e concluir o Colégio à noite.

Deu depois continuidade aos negócios do pai, adivinhando as dificuldades. “Depois dos incêndios, foi sempre a trabalhar de noite e de dia, com milhões de dificuldades. Às vezes sem ter dinheiro para comprar um parafuso. Cheguei a não confiar em nada, mas depois veio o 25 de Abril e para mim foi como passar do copo de vinho para a garrafa de litro e meio”.
E nesse dia de conquista da liberdade, Rafael recorda-se da ida a Benfica para a entrega de um grande móvel de madeira, feito por medida. “Só demos pelo 25 de Abril porque o cliente nos disse”. A sua firma acabou por fazer os móveis dos 28 andares desse prédio de Benfica.
Naquela altura, “ainda era preciso saber ser marceneiro. Agora basta ter habilidade para comprar a caixa, interpretar os bonecos e montar o móvel em casa”. E a oficina da família sempre prezou por ter bons profissionais. “Há uma coisa que deve ser única na minha empresa – os cinco operários que tínhamos, quando eu nasci já lá estavam e quando se reformaram é que se foram embora. Estiveram lá mais de 50 anos”.
“Ganhei muito dinheiro, mas também trabalhei muito”. O melhor professor que teve foi o seu pai, que foi “um gestor de categoria”.
Rafael Periquito deixou de fabricar móveis há dez anos. A oficina não está fechada, mas poucos trabalhos de madeira faz. Em parte, mantém as suas portas abertas por consideração àquele espaço, que tantas alegrias – e tantas tristezas – lhe proporcionou. “Ainda há dias gastei dois mil euros para pôr uma máquina que tem mais de 50 anos a trabalhar, com pena de ficar parada e se estragar”.
O negócio dos serviços funerários correu melhor. E ainda que para muitos seja difícil lidar com os mortos, eles passaram a significar para Rafael Periquito uma forma de sustentar a vida. Durante os últimos 30 anos, Rafael tem feito uma média de 170 funerais por ano. Fazendo as contas, foram mais de cinco mil enterros.
Quantas histórias não haveriam por contar… “Uma vez, estávamos a vestir um morto e reparámos que ele tinha a carteira no bolso do casaco. Fomos a abri-la e dou de caras com o meu retrato! Estávamos a vestir o meu casaco ao morto por engano. E uma outra vez trouxe o morto errado da morgue do hospital de Vila Franca para Vila Nova de São Pedro!”.
Rafael Periquito lembra ainda o funeral do Miranda, que tinha uma taberna e foi quem lhe ensinou “a beber copos de vinho”. Fez-lhe o funeral com a bandeira do Benfica em cima do caixão.
“Ele dizia-me que era eu que lhe iria fazer o funeral e que me deixava o dinheiro para pagar o serviço na mezinha de cabeceira. E deixou. Tinha lá dinheiro para pagar 10 ou 20 funerais”.
Quando chegar a sua vez de partir, Rafael Periquito não sabe quem o vai levar, mas sabe precisamente para onde vai. “Para o n.º 400, do Cemitério do Cartaxo. O terreno já está comprado”.