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2011-04-01

ROSA NEVES NA 32.ª CONVERSA NA TABERNA

Uma mulher que nunca virou as costas ao trabalho

Rosa Neves é uma mulher cheia de força, que sentiu no corpo o quanto custa ganhar a vida. Hoje é conhecida por ser a proprietária da última taberna do Cartaxo. Foi ela quem deu voz à 32.ª edição das Conversas na Taberna, no dia 30 de Março, no Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo.

“Há sempre alguém que resiste”. Maria da Rosa Neves manteve-se sempre de pé e de cabeça erguida ao longo da sua vida. Nada lhe caiu nas mãos sem que para isso não tivesse de trabalhar duramente. Nunca virou costas à enxada. Quando o trabalho dobrava na vacaria, não reclamava. Se à uma da manhã um cliente interrompia o seu descanso e batia à porta da taberna porque queria beber um copo, recebia-o de sorriso na cara.

A destreza e a genica desta mulher ainda são visíveis aos 75 anos. Rosa Neves nasceu em Liceia, concelho de Montemor-o-Velho, no seio de uma família pobre. Não chegou a concluir a escola primária, depois de um episódio que nunca apagou da memória.

“Eu estava muito constipada e a minha mãe deu-me um copo de aguardente com açúcar para curar a constipação. Apanhei uma bebedeira de todo o tamanho. Cheguei à escola nem via os números. A professora deu-me tanta porrada que nunca mais quis lá voltar”.

Mas ao longo da sua vida, foi-se apercebendo de como a escola é importante. “É por saber isso que pus a minha filha a estudar. O meu marido queria que ela fosse trabalhar para o campo quando terminasse o 12.º ano. Mas eu disse – ó Carlos, nem que eu ande toda esfarrapada, mas para o campo trabalhar é que ela não vai”.

A dureza do trabalho do campo foi bem vivenciada por Rosa Neves. “Quando eu me conheci por gente foi a trabalhar. Cavar terra para semear milho e batatas. A minha mãe ganhava o dia para a gente comer à noite”.

Foi por isso que, depois de ter conhecido o homem com quem partilhou grande parte da sua vida, decidiu trocar “uma terra de nada por uma terra valente”. Veio para o Cartaxo há cerca de 50 anos e foi aqui que “ganhou a vida”.

“Antigamente, havia grandes comerciantes no Cartaxo. As pessoas viviam bem, todas se governavam. Foi também aqui que eu ganhei a minha vida”.

Trabalhou 10 anos para João Mendonça, proprietário de uma quinta. Sempre o considerou “um bom patrão para os pobres”, ainda que trabalhasse de noite e de dia. “Eu trabalhava na secção de porcos, mas quando ele queria passear, pedia-me para eu ir ordenhar as vacas. Eu fazia essa obrigação, porque ele estimava a minha filha como se fosse filha dele”.

Como o trabalho nunca assustou Rosa Neves, ela guarda boas lembranças desse tempo. “Gostei muito de estar no Mendonça. Fazia de tudo, fartei-me de gadanhar erva para os porcos e para as vacas. Tinha a secção de porcos sempre limpinha, até as torneiras areava. Quem lá entrava até dizia que nem cheirava a porco”.

Passados 10 anos, Rosa e o marido decidem mudar de vida e abrem uma taberna na praça, na casa do Paveia. “Bendita hora que eu vim para aquela tasca. Era velha e cheia de lixo, mas foi onde eu arranjei vida. Trabalhei lá de noite e dia, com o meu marido, mas foi lá que eu arranjei muito dinheiro”.

Era o ponto de encontro habitual de homens, que ali se juntavam à noite a jogar aos rebuçados, ao bilhar ou aos matraquilhos. “Eu dizia – ó valha-me deus, outra vez o jogo dos rebuçados, hoje não nos deitamos”.

Mas era uma satisfação ter a casa cheia e ter bons fregueses. Rosa estava mais na parte da cozinha e o marido ao balcão. Os seus petiscos ganharam fama e a casa era procurada, não só para beber um copo de vinho, mas também para comer o bacalhau albardado, as iscas, as petingas, o chispe cozido ou a língua de porco estufada.

“Eu não servia almoços, mas eles pediam – ó rosa, não tens aí uma tigela de sopa e mais alguma coisinha? Eles ficavam todos encantados e diziam – que bem me soube a sopa e o bocadinho de chispe!”.

“A casa estava sempre muito quentinha, porque tinha lá um fogão a lenha, eles estavam lá muito bem. Quem nos fornecia os rebuçados era o JJ Almeida. Todos os dias ele ia lá levar sacadas de rebuçados. Eu perguntava ao Carlos (marido) se andava a fazer algum contrabando com os rebuçados! Mas isso era porque tínhamos uma rapaziada que gostava muito do jogo dos rebuçados e do bilhar”.

Fazia-se dinheiro, mas também se trabalhava muito. “Tantas vezes à uma e tal da manhã, já nós nos estávamos para deitar, quando nos batiam à porta da taberna e pediam um cafezinho porque estava muito frio. E nós lá tínhamos que ir novamente ao ataque. Ganhou-se muito dinheiro ali”.

Os fregueses frequentavam a taberna todos os dias da semana e o sábado era o dia “mais valente do negócio”. E não era só o conforto da casa e a qualidade do vinho e dos petiscos que atraíam os clientes. Era também a pessoa que estava do outro lado do balcão. “Muita gente gostava do meu marido, porque ele respeitava toda a gente”.

Na taberna, chegava-se a vender duas cartolas de vinho por dia. “Deixávamos à noite logo uma pronta, com a torneira posta, para começar a servir no dia seguinte de manhã. Era um tempo em que se fazia dinheiro, ganhava-se pouco, mas havia trabalho”.

Com a chegada da Feira dos Santos, que na altura se realizava junto à Praça de Touros, o movimento na casa “era uma loucura”. Tanto que na taberna se chegava a vender “uma camioneta de cerveja e cinco cartolas de vinho. Estavam quatro ao balcão a aviar e tinha uma mulher só a lavar copos”.

O marido ainda chegou a trabalhar uns tempos para o Ribeiro da Costa, deixando Rosa ao balcão. Contudo, o marido teve de regressar, “porque os clientes diziam que bebiam mais copos de vinho se fosse ele a servir. Comigo ao balcão, eles bebiam um copo e iam-se embora”.

Com a vida a correr bem, Carlos Dias, marido de Rosa, decidiu comprar uma casa antiga para restaurar. “Estava toda pintada de encarnado, as paredes eram cor de camurça, o chão era só buracos e as portas eram pintadas de encarnado. Quando fomos ver a casa, a minha filha vira-se para mim e diz – isto não é uma casa, é uma praça de toiros!”.

Também na recuperação da casa, Rosa Neves não se acanhou. “Eu não conseguia ver os homens a acartar sacas de cimento às costas, dizia logo que queria uma saca também para a minha cabeça. Até serventia a pedreiros eu dei”.

Durante muitos anos, a porta da taberna encerrou religiosamente três dias em Agosto. “Eram os únicos dias de descanso, e era quando íamos passear. Era um grupo lindo, que nunca mais se fez nem nunca mais se há-de fazer. A camioneta ia cheia e até esses passeios o meu marido aproveitava para vender vinho e cerveja”.

Depois da taberna Paveia, Rosa e o marido decidem instalar o negócio numa casa na Rua do Giné, junto à Igreja. Após o falecimento do seu companheiro da vida, Rosa é agora conhecida como a proprietária da última taberna do Cartaxo.



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