Ramiro Vergas foi o convidado da 25.ª edição das Conversas na Taberna, que decorreu no dia 30 de Junho, como habitualmente, na taberna do Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo.
Lutar por aquilo que se gosta. Nunca gastar mais do que se ganha. Construir para mais tarde poder aproveitar. São algumas das chamadas “frases feitas”, que se lançam por vezes no meio de conversas banais. Quando recomendadas a outros, não chateiam, nem ofendem. Só quem as segue à risca parece dar-lhes a devida importância.
Ramiro Vergas teve, desde cedo, bons motivos para deixar de sonhar. Aos 7 anos ficou sem mãe e aos 13 sem pai. Abandonado à sua sorte, e aos cuidados da avó materna, foi acompanhando o ritmo das tarefas do campo.
“Foi uma vida sofrida, de enxada nas mãos – a caneta de dois bicos, como lhe chamávamos. Chorei muito a falta dos meus pais, ainda hoje sinto a falta deles. Talvez por isso sinto uma revolta muito grande quando vejo filhos a faltarem ao respeito aos pais”.
Interrompeu as jornadas de trabalho no campo para ir para a tropa. Ainda sem saber o que o iria esperar, o motivo foi comemorado com “festa de arromba”. Houve berbigões, cozinhados dentro de um lagar, regados com bom vinho.

Foi no Ultramar que passou os momentos mais difíceis da sua vida. “Chegámos no dia 13 de Maio de 1966 e logo no dia 28 tivemos uma emboscada. A 13 de Junho caímos debaixo de fogo – resultado: duas mortes e dois feridos graves. O meu estado de espírito era de stress e muito medo, eu pensava que seria impossível escapar”.
Sem ter conseguido “os tais padrinhos” nem na tropa, nem depois dela, Ramiro Vergas lançou-se à vida, “sempre com uma vontade enorme de fugir dos caminhos mais sinuosos”. Era a recusa em conformar-se com uma vida difícil que o motivava a lutar.
“A juventude de hoje desmotiva-se muito facilmente. Pode-se perguntar: que motivação podia ter um jovem que aos 13 anos já não tinha pai nem mãe? Só uma grande força me levava a seguir em frente e a querer safar-me daquela vida dura”.
Até mesmo os namoricos se tornavam mais complicados, confrontado com a ideia dos pais das raparigas que o rotulam de “um Zé Ninguém”. “Via-me aflito, não me safava com as meninas mais bonitas! Não tinha heranças, não tinha nada…”.
Agarrado à convicção de que ter uma profissão era o ponto de partida para “um dia vir a ser alguém na vida”, viu nos cursos profissionais uma oportunidade de poder traçar esse caminho mais seguro. Para sua surpresa, os testes psicotécnicos ditaram aptidões para a área da electromecânica.
“Frequentei o curso sempre com muita garra. Eu pensava para comigo, ou passas ou ficas outra vez a pedalar em seco. Não era pessoa inteligente, mas aplicava-me muito. Não tinha problemas em levantar o dedo e mostrar que não percebi à primeira”.

O empenho teve resultados e, um mês depois de terminar o curso, teve um contacto para ir para uma empresa, a JS Azevedo e Silva, que estava a precisar de pessoal para ir para o Porto, para obras de refinaria. “Fiquei encantado, era o momento de passar à prática”.
Mas acabaram por lhe trocar as voltas, e acabou por ficar em Lisboa a montar postes de transformação, “que era mais um trabalho de serralharia do que de electricidade”. Estava-se em Abril de 1969 e no final desse ano foi Ramiro Vergas quem decidiu dar um novo rumo ao seu trabalho.
“Eu fui para a JS Azevedo e Silva ganhar o que tinha pedido, 80 escudos por dia, que já era bom. E no final do ano eles deram-me um aumento de 16 escudos. Mas eu já tinha respondido a um anúncio para electricista para a Epal, então CAL – Companhia das Águas de Lisboa. Quando me fui despedir, o engenheiro ficou todo aborrecido, mas depois disse que a porta ficava aberta se eu quisesse voltar”.
O trabalho na Epal acabou por se revelar bastante duro – “nada era motorizado, tínhamos de abrir torneiras de 500 e 700 à mão. No fim do dia estava cansadíssimo”. Mas se por um lado este trabalho não era fácil, o momento da transição para os mecanismos mais modernos também não se levou de ânimo leve.
“Aos 50 anos, com 25 anos de casa, tivemos de ser submetidos a cursos de aperfeiçoamento, na área de computadores. Falavam que quem não tivesse aproveitamento saía. Foram medos que se instaram, e eu só pensava que chegava ao fim do curso e não me safava. Mas isso acabou por me dar mais força. Rapaz, tens que te agarrar, dizia eu. Nem pus os pés na festa de Vale da Pedra”.
Mas valeu a pena, porque teve 81%, numa escala de zero a cem. E isso valeu-lhe mais – passou à categoria de coordenador, chefiando uma equipa de operadores. “E foram mais 35 contos que passei a ganhar”. Mas também perdeu inicialmente alguma harmonia no trabalho, porque “inverteram-se papéis” na hierarquia da empresa, e isso não foi muito bem aceite.
Mas o que fez mais Ramiro Vergas, além de trabalhar? Há no seu percurso de vida muitas outras marcas, “as tais obrazinhas que toda a gente deve deixar”. Como por exemplo o facto de ter sido um dos primeiros autarcas da freguesia de Vale da Pedra, em 1988.
Foram quatro anos de “boas experiências” à frente da tesouraria daquela autarquia. E de grande rigor. “Todos os meses fazia balanços. Tinha que se saber o dinheiro que entrou, o que saiu, para onde foi. Se faltasse um escudo, tinha de saber onde estava, e aparecia sempre”.
E por falar em dinheiro, recorda a tão respeitada frase proferida tantas vezes pela sua avó: “O dinheiro é de quem o poupa, não de quem o ganha”. Para Ramiro, é mais do que uma frase – é um conselho que religiosamente tem sempre presente. E foi também graças a ele que conseguiu construir um “pequeno património” que agora, aos 66 anos, lhe permite desfrutar tranquilamente da vida, ao lado da sua “grande companheira”, com a qual partilha o lar há 38 anos.
Olhando para trás, dá vontade de pegar nas palavras que nos canta Sérgio Godinho e de lhes fazer uma pequena transformação: “a vida é feita (a partir) de pequenos nadas”…
Gabinete de Imagem e Comunicação
(+351) 243 700 252 | comunicacao@cm-cartaxo.pt