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2010-10-01

José Lameira na 27.ª edição das Conversas na Taberna

O DINHEIRO QUE DEFINE UMA TERRA

Foi uma conversa com um bancário onde não se falou apenas de dinheiro. No dia 29 de Setembro, na Taberna do Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo, recordou-se o ambiente económico, rural e social do Cartaxo influente dos anos 60 e 70.  

Do lugar ocupado nos diferentes bancos financeiros por onde passou, José Lameira recorda com mais saudades o contacto com as pessoas, sobretudo os laços criados nos primeiros anos da sua carreira.

Era a época de um dinheiro que custava a ganhar, que era gerido com rigor e gasto com cautela. Notas e moedas que passavam pelas mãos deste bancário, contadas uma a uma, apontadas e registadas manualmente em folhas de papel.

Havia mais contas para fazer, mais registos para escrever. Um trabalho mais manual e, ao mesmo tempo, “mais humanizado”, mais próximo das pessoas. “As instituições eram serviços para as pessoas, eram mais humanizadas. As pessoas pediam-nos conselhos e iam regularmente aos bancos”.

As máquinas acabaram por afastar as pessoas das instituições financeiras. “Antigamente era abrir balcões, depois foi reduzir pessoal e fechá-los”.

Foi em Março de 1965 que José Lameira pisou as terras do Cartaxo pela primeira vez. Trouxe consigo o sotaque – que mais tarde perdeu – e os ares alentejanos da sua terra natal, Elvas – que nunca esqueceu. Trouxe também a experiência urbana da capital, onde iniciou a profissão, na Caixa Geral de Depósitos. “Eu não gostava de estar em Lisboa. Era provinciano, gostava de vir para a província”.

Nasceu em Elvas, há 73 anos. Por aí esteve até terminar a tropa, em Outubro de 1959. Depois, foi para Lisboa, a mandado do pai, que lhe disse que o esperava na capital um emprego na Caixa de Previdência da Sociedade do Comércio. Apresentou-se ao trabalho no dia 2 de Novembro. Esteve lá uns seis meses, depois foi para a Caixa Geral de Depósitos.

O seu pai era comerciante e a mãe modista. Apesar do dinheiro não ser em abundância, “comíamos sempre bons produtos. O meu pai trocava as chitas e outras coisas por belos queijos alentejanos”. Querendo o melhor para o filho, o seu pai influenciou-o a ir estudar – uma vontade que José Lameira contrariou e o pai não teimou.

“O meu pai deu-me grandes lições. Uma foi esta. Perguntou-me se queria ser caixeiro, e então arranjou-me trabalho. Mas os meus braços até tremiam a levar os carros de mão com que ia buscar azeite e petróleo. Andei um ano e tal nesse trabalho, mas depois não quis mais. Fui então estudar. Foi uma grande lição, porque se eu tivesse ido estudar no início, contra-vontade, não me tinha aplicado tanto”.

Em 1965 veio então para o Cartaxo por intermédio de um colega, que por sua vez conhecia um cartaxeiro, sobrinho do Sr. José Carvalho. Encontrou aqui uma vila cheia de vida – com uma actividade económica significativa e uma vida social muito rica. “O Cartaxo nessa altura era uma grande terra”.

“Fui para tesoureiro para a Caixa Geral de Depósitos e passados seis meses abri o banco Totta-Aliança. Tenho muitas saudades, nessa altura clientes e empregados eram uma família. Era raro o cliente que chegava ao banco e não cumprimentava o empregado, que não tivesse uma conversa, uma história para contar, era um relacionamento fantástico. Mas agora, com as novas tecnologias, dão cartões para as pessoas ficarem à porta”.

Esteve no Cartaxo até 1975, depois passou por outros locais: Azambuja, Pernes, Lisboa, Carregado, Almancil, apanhando já as mudanças que iam transformando os bancos.

José Lameira ia-se apercebendo que o tempo não voltava atrás. “A Caixa do Cartaxo chegou a ter 30 empregados” – isso não voltaria a acontecer. Assim como também fazia parte do passado escrever tudo à mão, abrir o banco ao sábado de manhã…

Mas sabe-lhe bem recordar os bons anos do Cartaxo. Anos em que o vinho em abundância permitia a muitos vitivinicultores criarem “um bom pé-de-meia”. “Nós às vezes víamos entrar um homenzito, do campo, de barrete na cabeça, e pensávamos até que vinha pedir esmola. Mas enganávamo-nos. Era capaz de pôr ali uns 300 ou 400 contos, que ganhava com a venda do vinho. O Cartaxo tinha um certo peso em termos económicos, muito graças ao vinho”.

Tal era a importância e a complementaridade de serviços existente no Cartaxo, que “80% das pessoas que trabalhavam em Azambuja, na Ford, na General Motors, vinham morar para o Cartaxo. Era três e quatro autocarros a trazer pessoal”. Azambuja estava menos desenvolvida. Até ao início dos anos 70 só tinha um banco, por isso, não tendo capacidade de resposta, as pessoas acorriam à vila vizinha do Cartaxo.

“O dinheiro define muito o que é uma terra. O vinho influenciou muito o Cartaxo. Foi o vinho que fez com que os bancos se instalassem aqui”.

Uma grande diferença de hábitos e mentalidades separa o Cartaxo dessa altura e o Cartaxo dos dias de hoje. E no que toca ao dinheiro aconteciam episódios interessantes, que revelavam a dificuldade que as pessoas sentiam, sobretudo as que viviam no espaço rural, em acompanhar os passos da modernidade.

“As pessoas levavam o dinheiro ao banco como o tinham em casa. Houve uma senhora que um dia trouxe um molho de notas atado com nastros. Quando precisou de dinheiro e foi ao banco para levantar dizia que aquele dinheiro que lhe dávamos não era o dela, porque o dela estava atado com nastros”.

À noite, ao fim-de-semana, eram os bailes no Ateneu ou na Música que entretinham a população. “Se calhar até nem me fica muito bem eu dizer isto, mas era um grande bailarino. Ainda hoje gosto muito de dançar”.

Depois do serviço, os homens encontravam-se nas tabernas. “Eu só bebia depois de sair do banco. Ainda hoje não consigo beber antes das seis da tarde. Depois disso, como nós dizíamos, até podia escorrer por uma telha”.

E havia espaços para vários gostos e estratos sociais. A Taberna do Carocho “cheirava a desinfectado, os copos até brilhavam. Era um espaço muito asseado”. O Miranda tinha uma grande cozinheira, “era frequentado pela alta sociedade que gostava de beber”. A Vanália era onde se concentrava o operariado. No Monumental, o funcionalismo e era também onde um grupo de mulheres bebia vinho por uma chávena.

Após o casamento, aos 26 anos, este filho adoptivo da terra escolheu a Ereira para viver. Encontrou uma terra essencialmente agrícola, mas com características que a distinguiam das outras freguesias do concelho. Tinha farmácia e foi o lugar onde se instalou o primeiro Centro Social do concelho.

“Era uma grande terra, para mim a melhor das freguesias. Era a mais limpa, tinha tudo e as pessoas sentiam gosto em viver ali. Ainda hoje as pessoas têm o hábito de cuidar muito do que é seu, de varrerem a rua à frente das suas portas, de arrancarem as ervas”.

E como “filho da terra – seja natural ou adoptivo – não degenera”, José Lameira aceitou este concelho como seu, prezando a sua cultura e os seus hábitos. 



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