Uma vida dedicada ao trabalho e ao associativismo. Faustino da Mata lutou sempre por concretizar os seus sonhos, tanto na vida profissional, como na pessoal. E ainda lhe sobra tempo para pensar na comunidade, ocupando parte da sua vida com o associativismo. Faustino da Mata foi o convidado da última edição das Conversas na Taberna, no dia 29 de Junho.

As oportunidades não são obra do acaso. As oportunidades constroem-se. Muitas bateram à porta de Faustino da Mata, mas só algumas o ajudaram a concretizar os seus sonhos.
Poderia ter ascendido aos mais altos lugares de carreira militar, mas a responsabilidade que o cargo exigia impedia-o de continuar a ser livre. Poderia ter integrado os pelotões do ciclismo nacional, vestindo a camisola do Sporting, mas não quis fazer do desporto o seu projecto de vida. Sonhava ser toureiro e chegou a estar próximo desse sonho, fazendo muitas vezes de peão de brega, mas também acabou por se desviar desse caminho.
“Perdi muitas oportunidades, é verdade, mas nunca fui oportunista. Tudo o que conseguia, tinha de ser através do trabalho”. Faustino da Mata nasceu na freguesia de Aveiras de Cima, mas foi no concelho do Cartaxo que encontrou a oportunidade de construir uma vida profissional estável. À comunidade, deu também o seu contributo enquanto dirigente associativo. 
Filho de agricultor, desde pequeno se envolveu nas actividades do campo. Aos 16 anos assentou praça como voluntário na Aeronáutica, concluindo o curso de Transmissões de Controlador Aéreo em Tavira. Passou depois por Tancos, pedindo transferência para a Ota.
“Tive todas as possibilidades para seguir a vida militar, mas sempre sonhei ser livre. Aos 16 anos fui ameaçado pela PIDE por ter ensaiado uma marcha popular e fui impedido de sair com ela no segundo dia. Senti-me revoltado”.
Na sua juventude, pertenceu a várias comissões de festas que revertiam a favor da construção da Capela dos Casais de Vale Brejo. Foi também ciclista amador, tendo sido convidado duas vezes para ir treinar para o Sporting. “Não fui porque tinha outros projectos de vida. Foi um desgosto muito grande para alguns familiares”.
Não perdia um baile, nem a oportunidade de pedir namoro. “Vestia-me muito a rigor e gostava de dançar com a menina mais bonita da sala. Pedia namoro às raparigas – cheguei a ter duas namoradas num arraial e ainda ia pedir namoro a outra – mas nunca tinha coragem de acabar namoro com elas”.
Pensava num compromisso mais sério só para depois dos 35 anos. “Mas fiquei sem mãe aos 24 anos, foi o maior desgosto da minha vida. Tive de mudar de ideias e casei aos 25”.
Decidiu investir num negócio próprio, de compra e venda de frutas, mas foi “atropelado na vida”, porque 15 dias depois roubaram-lhe o carro. Foi então trabalhar por conta de toureiros, transportando cavalos “para muitos dos grandes toureiros daquela época”, como Carlos Empes, José Mestre Baptista, Soma Andrade, Luis Miguel da Veiga e Fernando Salgueiro.
À conta disso, teve muitas vezes a oportunidade de fazer de peão de brega em praça e, em Coruche, salvou a vida a Manuel Badajoz. “Ele caiu do cavalo e eu fui o primeiro a entrar na arena e a entreter o touro com o capote. Até hoje ele me agradece a vida”.
Foram episódios que o marcaram, assim como os tempos em que foi feitor da Quinta do Gil do Dr. Ramalho, no Cartaxo, com apenas 26 anos. “Cheguei a ter a meu cargo mais de seis ranchos que envolviam mais de 300 pessoas. Estive lá sete anos, mas também não foi ali que eu encontrei o meu futuro”.
Não foi aí, nem no estrangeiro. Emigrou para a Alemanha, onde esteve três anos a trabalhar numa fábrica de cablagem. “O que mais me custou foi deixar em Portugal mulher e três filhos”. Foi por eles que regressou depois do 25 de Abril, começando uma nova vida no Cartaxo.
“Gostei muito desta terra e foi aqui que pensei fazer a minha vida. Comprei uma firma de transportes nacionais, a Transporvalada, e percorri todo o país e o estrangeiro a transportar mercadorias”. Foi assim até se reformar, aos 65 anos.
No Cartaxo é também reconhecido como um dos mais antigos dirigentes associativos. Em 1985 integrou a direcção da Sociedade Filarmónica Cartaxense – primeira colectividade a ser criada no concelho. Nesse ano, organizou no Cartaxo o maior encontro de marchas populares, que contou com a participação de 550 elementos.
Em 1991 fez parte da fundação da Federação Portuguesa de Dança Desportiva em Portugal, tendo organizado um Campeonato Nacional que atraiu à Praça de Toiros do Cartaxo mais de três mil pessoas.

O seu grande sonho era, contudo, a construção de uma nova sede para a Sociedade Filarmónica Cartaxense, o que foi conseguido em 18 de Novembro de 2001. “Tem merecido a pena o carinho e o esforço de milhares de horas que tenho dado para apoiar a colectividade e as suas 27 actividades. Tem sido uma dedicação quase a tempo inteiro, ao longo de mais de 20 anos. Tenho deixado muitas outras coisas importantes na vida para trás, como a família”.
Faustino da Mata é ainda sócio do Ateneu Artístico Cartaxense, do Sport Lisboa e Cartaxo, do Núcleo da Cruz Vermelha do Cartaxo e da Santa Casa da Misericórdia do Cartaxo.
“O que consegui na vida, foi graças ao meu trabalho. Mas também acredito que é o destino que marca o nosso caminho. Eu só sei que tudo o que fiz foi por gosto, sempre com muita humildade”.