Passados 40 anos, António Montez voltou ao Cartaxo para contactar com as suas raízes e reencontrar amigos de infância
O actor António Montez esteve no Centro Cultural do Cartaxo (CCC) no dia 26 de Setembro, a convite de José Raposo, que dinamizou no bar deste espaço cultural a primeira de muitas conversas com figuras conhecidas do grande público.
“José Raposo Convida” é a nova rubrica do CCC que, num ambiente informal e descontraído, pretende unir os cartaxeiros, e não só, em torno de recordações e de histórias relacionadas com o Cartaxo e com a vida dos protagonistas convidados.
José Raposo escolheu António Montez para encetar este programa de conversas, primeiro porque o actor é natural do Cartaxo, depois porque “estamos perante uma pessoa muito importante para mim e para o país. É um marco da cultura portuguesa, que passou por todos os géneros de representação e por quase todos os grupos de teatro do país”, frisou José Raposo.
Além do contacto com uma figura pública, este encontro foi essencialmente de reencontro. “Nasci no dia 25 de Maio de 1941 na curva da Rua Dr. Lopes Baptista. Vivi ali até aos 8 anos, depois fui para Lisboa”. Destes oito anos passados no Cartaxo, António Montez recorda-se das ruas, da escola, mas sobretudo das pessoas. Alguns dos seus amigos de infância foram ao CCC dar-lhe um abraço e completar histórias do passado do Cartaxo.
Há cerca de 40 anos que António Montez não vinha ao Cartaxo. A última vez que visitou a sua terra natal foi em 1969, como actor. Representou a peça “A Preguiça”, com Raul Solnado, no Cine-Teatro Ribatejo.

As afinidades com o Cartaxo “foram-se desvanecendo” à medida que os anos passavam. “Mas digo em toda a parte que sou do Cartaxo”, assentou António Montez. Uma das pessoas que mais o influenciou na vida foi o seu professor da escola primária. “José António Poeira foi o melhor professor que tive. Era uma pessoa extraordinária, de quem fiquei amigo ao longo da vida. Sempre que passava perto do Cartaxo vinha visitá-lo”.
E entre as pessoas de quem guarda mais e melhores recordações está o seu avô, Dr. Júlio Montez, conhecido no Cartaxo como “o pai dos pobres”. “O meu avô foi o único médico do concelho que morreu teso. A minha avó fez também um grande trabalho junto dos mais necessitados, sobretudo na cantina escolar”, recorda o actor, acrescentando que foi também influenciado pelo avô que decidiu entrar para Medicina. Contudo, “entre dois amores tive de escolher um. Escolhi o teatro e até hoje ainda não me arrependi”, referiu.
António Montez recordou ainda o dia do funeral do seu avô, “em que todo o comércio fechou e, quando a cabeça do funeral estava a chegar ao cemitério, ainda o largo do centro da vila estava cheio”.
O começo da sua carreira de actor foi também motivo de conversa, com António Montez a destacar a sua entrada para o Teatro Experimental do Porto, com 23 anos, logo após a sua decisão de deixar a área da medicina. “Era uma etapa antes do céu, fiquei louco. Fiz 12 peças seguidas, dez das quais como protagonista absoluto. Foi o melhor de todos os conservatórios”.
As recordações, o reencontro e a emoção envolveram todo o grupo que ouviu e teve oportunidade de conversar com António Montez. E foram sensações que marcaram também muito o próprio actor. “O facto de me sentir bem aqui convosco quer dizer alguma coisa. Foi um momento que superou grandemente o que eu esperava. Eu estava à espera de encontrar gente conhecida, e encontrei. Estava à espera de me comover, e comovi. Mas não estava à espera de me sentir tão em casa, aí sim surpreendeu-me”, afirmou António Montez.

Também José Raposo estava “extremamente satisfeito” com o resultado desta primeira iniciativa. “Foi muito interessante conversarmos todos e, através de uma figura – com uma carreira tão impressionante como António Montez – falarmos e recordarmos muitas outras coisas. Este reencontro das pessoas, em jeito de tertúlia, foi muito agradável”, frisou.
A rubrica “José Raposo Convida” vai realizar-se nos últimos domingos de cada mês e no dia 31 de Outubro vai contar com a presença de João Baião.
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