No dia 18 de Junho, o Salão Nobre da Câmara Municipal do Cartaxo abriu as suas portas para uma Assembleia Municipal Extraordinária, centrada na problemática do papel da mulher na sociedade, desde a implantação da República até à actualidade.
Integrada nas Comemorações do Centenário da República, esta sessão contou com a presença de Elza Pais, Secretária de Estado para a Igualdade, e de Odete Santos, advogada e ex-deputada da Assembleia da República.
Maria Manuel Simão, presidente da Assembleia Municipal, abriu a sessão, explicando que o objectivo do encontro foi homenagear todas as mulheres que lutaram pela liberdade, entre 1910 e 2010.
Evocando Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Manuel Simão leu o poema “Procelária”, comparando a ave – “que faz o ninho no rolar da fúria”, “sobre os abismos passa e vai em frente”, “faz da insegurança a sua força” – à mulher. Para a presidente da Assembleia Municipal, “é necessário quebrar ainda algum silêncio” e “é importante que o canto da mulher seja canto de assunção de uma cidadania inteira”.
Falar da mulher nos últimos 100 anos, “é fazer um balanço da sociedade”, frisou a Secretária de Estado para a Igualdade, para quem o século XX significou a conquista dos valores e o século XXI a conquista das oportunidades. E neste campo, “ninguém melhor do que as autarquias, que estão próximas das pessoas, para desenvolver estratégias de mudança de valores”, defendeu Elza Pais.

A Secretário de Estado para a Igualdade destacou os principais momentos de emancipação da mulher ao longo dos últimos cem anos e, apesar das conquistas e das medidas governamentais introduzidas, considerou que há ainda um longo caminho a percorrer, para que se alcance uma sociedade mais justa.
“Todos temos de nos implicar de uma nova atitude que permita um relacionamento mais saudável entre homens e mulheres”, frisou, alertando para o facto de “as sociedades mais desenvolvidas são as que mais promovem a igualdade”.
A respeito da participação das mulheres no triunfo republicano, Elza Pais referiu que “elas pensaram, organizaram-se, escreveram, aderiram a causas, calendarizaram reuniões, correram riscos, promoveram congressos e manifestações. Elas foram à rua, elas estiveram lá, tal como os homens”.
Odete Santos centrou-se no passado de resistência e de luta das mulheres, não fosse ela considerada uma das vozes que mais interveio – e que continua a intervir – na defesa dos direitos das mulheres.
Odete Santos fez questão de repetir a expressão de Simone de Beauvoir, que já havia sido evocada por Maria Manuel Simão – “nós não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres”. Desde a luta das operárias das fábricas de conserva de Setúbal, passando pelo fascismo, até à filosofia da paridade, Odete Santos mostrou-se insatisfeita com as conquistas alcançadas e apelou às “mulheres cidadãs, às mulheres de luta”.
Hélia Baptista, membro da Assembleia Municipal eleita pelo PSD, teve também voz nesta sessão. A deputada municipal lembrou a criação do Dia Internacional da Mulher, que ocorreu há cem anos, e enumerou algumas das submissões impostas à mulher, que a deixavam numa “situação degradante”, como classificou.
A mulher que não tinha direito ao voto, que não podia viajar sem uma autorização do marido, a mulher analfabeta, as mulheres que “trabalhavam como serviçais sem receber nenhum salário”, foram alguns casos mencionados por Hélia Baptista, que defendeu, para os dias de hoje, uma maior igualdade salarial e de oportunidades.
Célia Morgado interveio em nome do Bloco de Esquerda e optou por recuar mais no tempo – ao tempo de Adão e Eva – expressando “um longo passado que oprimiu a mulher”.
Foi uma perspectiva da condição da mulher ao longo da história, que focou, essencialmente, a visão religiosa da figura da mulher e o período da “caça às bruxas”. Célia Morgado terminou a sua abordagem com alguns “pensamentos anti-feministas” e com as últimas estatísticas dos casos de violência doméstica.