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2010-04-27

CARTAXO COMEMORA 25 DE ABRIL - DIA DA LIBERDADE

Festa do Vinho à porta

· Paulo caldas faz discurso crítico apontando "fragilidade imensa e significativa das instituições políticas e públicas"

· Presidente da Câmara deposita esperança nas novas gerações para a criação de uma sociedade mais justa e solidária e uma economia mais sólida e competitiva


Os Paços do Concelho foram o centro das comemorações do Dia da Liberdade no Cartaxo. Os autarcas locais juntaram-se em frente do edifício da Câmara Municipal, pelas 9h30, para a cerimónia do hastear da bandeira nacional, seguindo-se um desfile em viaturas do corpo de Bombeiros Municipais.

Pelas 11h00, o Salão Nobre acolheu os eleitos da Assembleia Municipal e restantes autarcas locais, numa sessão comemorativa, aberta a todos os munícipes, onde tiveram voz as várias forças políticas representadas neste órgão deliberativo, assim como o presidente do Município, Paulo Caldas.

Maria Manuel Simão, presidente da Assembleia Municipal, abriu a cerimónia evocando uma das mensagens mais consagradas de Sophia de Mello Breyner: “Esta é a madrugada que eu esperava, o dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio e livres habitamos a substância do tempo”.

A presidente da Assembleia Municipal distinguiu ainda o facto da Revolução de Abril ter restituído a liberdade aos portugueses “sem que fosse derramada uma única gota de sangue” e defendeu que “as efemérides históricas não acabam em si mesmas, há que prosseguir a caminhada e não desistir nunca de fazer mais por esta pátria que é nossa”.

 

Paulo Caldas aponta desigualdades sociais e deposita esperança nos jovens

Trinta e seis anos depois do 25 de Abril de 1974, “é tempo de fazer um balanço dos sinais de mudança que a revolução imprimiu no país”, afirmou o presidente do município. Enquanto “filho de Abril”, Paulo Caldas considera que estes “sinais de mudança não são aqueles com que os Capitães de Abril sonharam”.

O agravamento das desigualdades económicas e sociais, “em que 10% daqueles que vivem entre nós detêm mais de 90% da riqueza produzida”; a inexistência de uma verdadeira política euro-atlântica; a “fragilidade imensa e significativa” das instituições políticas e públicas, no âmbito da qual se assiste “a um estado da justiça, da segurança social, da educação e de áreas tão sensíveis como a saúde que batem no fundo”; e a falta de uma visão para Portugal que defina objectivos concretos para a economia, energias, indústria, educação, turismo ou mundo rural, foram os principais aspectos negativos da sociedade actual identificados por Paulo Caldas. 

Se por um lado, nestes 36 anos de democracia “não conseguimos encontrar o caminho certo”, por outro, a liberdade permitiu alcançar “grandes consolidações”. Para Paulo Caldas, “hoje temos um desenvolvimento económico e social maior e uma economia mais sólida. E neste campo, têm sido as autarquias – Juntas e Assembleias de Freguesia, Câmaras e Assembleias Municipais – que têm dado grande parte do contributo para este Portugal mais moderno. Tem sido o poder autárquico responsável pela maioria das evoluções e revoluções das condições económico-sociais do país”.

A comunicação mais livre, um maior poder participativo e a integração europeia e política são também marcos da construção de uma sociedade melhor. Mas, “o grande salto qualitativo dos últimos 36 anos dos poderes que nos foram conferidos é o poder geracional – um poder que está nas mãos de uma sociedade e de uma economia criativas”, afirmou o presidente do município.

“Hoje temos jovens, mulheres e homens mais bem preparados. Hoje os nossos filhos dominam as novas tecnologias como nunca, têm acesso a muita informação e conseguem trabalhá-la. A estrutura genealógica do povo português do “desenrascanço” tem, nos nossos jovens, uma outra qualidade – a capacidade de fazer e fazer bem. E é nos nossos jovens que reside, essencialmente, essa capacidade”, referiu Paulo Caldas.



A estrutura governativa também mereceu críticas por parte do presidente da autarquia, que defendeu a existência de “menos políticos, mas com mais qualidade”, a alteração da lei fundamental adaptada aos tempos modernos e novas leis eleitorais que privilegiem a estabilidade e a representatividade do sistema político. “Só conseguimos isto com uma cultura de responsabilidade. É o povo português que deve comandar o trabalho dos políticos”, acrescentou.

Para Paulo Caldas, a esperança reside nas novas gerações. “Precisamos de apostar estrategicamente numa economia mais forte, e os nossos jovens já demonstram capacidade de a agarrar. Esses sim estão a dar provas de conseguir chegar aos lugares de topo”.

Todavia, a par dos “brilhantes académicos, premiados lá fora, muitos deles considerados os melhores do mundo nas diversas áreas das biotecnologias e outras” existe uma outra realidade – “assistimos à incapacidade dos políticos e das políticas públicas de impedirem que um homem que trabalha numa empresa ganhe num ano o que o mais alto magistrado da nação ganha em 22 anos”.

“Esta nossa sociedade, assim, não presta”, afirmou Paulo Caldas, acrescentando que “gostava que os nossos filhos vivessem num 25 de Abril mais justo e mais solidário. Um 25 de Abril onde conseguíssemos, com a cultura da responsabilidade, responsabilizar os políticos e as políticas públicas no que é fundamental”.

 

Representantes das bancadas discursaram na Sessão Solene

Representando a bancada do PS, Bernardo Pereira deu voz a uma mensagem na qual espelhou um sentimento de tristeza, pelo facto de constatar que os portugueses não fazem do 25 de Abril “a grande festa nacional”, mas antes comemoram a data “de forma envergonhada”.

“Temos uma revolução que é estudada em universidades de vários cantos do mundo, uma revolução única na história, que derrubou uma ditadura de meio século sem derramamento de sangue. Os franceses tiveram uma revolução sangrenta, cruel e no entanto a Tomada da Bastilha é comemorada com festa nas ruas. É uma França pintada de azul, vermelho e branco. Era esta festa que eu gostava de estar aqui hoje a fazer”, comparou o deputado socialista.

Para Hélia Baptista, deputada da bancada do PSD, o 25 de Abril de 1974 foi “um momento de viragem na nossa história que não terá passado de um sonho”, uma vez que os valores conquistados com a revolução “estão agora a ser colocados em causa”. A título de exemplo, a deputada fez referência aos níveis de associativismo e activismo dos portugueses, “que são mais baixos do que a Europa”, e “à tendência para o abstencionismo, a par do aumento da volatilidade eleitoral”. 

As desigualdades sociais, o aumento do desemprego e a justiça – “que devia ser o pilar da democracia, mas actualmente sofre entorses, resultado das pressões dos poderes económicos, mas também dos religiosos e políticos” – foram aspectos da sociedade portuguesa realçados por Hélia Baptista.

Em representação dos deputados da CDU, Emília Soares afirmou que “os grandes valores de Abril criaram profundas raízes na sociedade portuguesa e continuam a inspirar a luta nos trabalhadores e de todos os cidadãos que acreditam que é possível uma sociedade mais participada, mais justa e mais democrática”.

A deputada fez ainda alusão ao desemprego, aos baixos salários e à corrupção e considerou que “o que falta na vida de milhões de portugueses sobra em lucros e privilégios para os grupos económicos nacionais e estrangeiros, bem como os escandalosos salários dos seus gerentes. Riqueza existe, está é mal distribuída”.

Da parte do BE, Pedro Mendonça considerou a Revolução dos Cravos “o fim de um dos períodos mais ignorantes e obscurantistas de Portugal”. Considerou ainda que “os conceitos abstractos de República ou democracia pouco interessam enquanto liberdade e justiça social forem palavras vãs”.

“Só seremos verdadeiramente livres quando todos os seres humanos que nos rodeiam, homens e mulheres, forem igualmente livres”, defendeu o deputado do BE.

Sofia Antunes, cantora lírica, e José Manuel Rodrigues, professor, declamaram e interpretaram, no final da Sessão Solene, poemas alusivos ao 25 de Abril e à liberdade.








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