O Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo assinalou o seu 26.º aniversário com a realização de dois eventos que motivaram, por um lado, uma reflexão sobre as potencialidades do sector do vinho e a sua associação à gastronomia, e por outro uma abordagem à riqueza natural e paisagística da região.
No dia 22 de Novembro, o Auditório Municipal da Quinta das Pratas acolheu uma mesa-redonda sobre “O Vinho na Gastronomia”, que contou com a presença de três técnicas do Instituto Piaget, e no dia seguinte foi inaugurada uma exposição de fotografia de Carlos Inácio e Pedro Inácio, que tem como título “O Silêncio das Cegonhas”, seguida do lançamento de um livro sobre o mesmo tema e da autoria destes dois irmãos.
No dia da abertura das comemorações do 26.º aniversário, o director executivo do Museu, Vítor Varela, focou a importância do sector do vinho no panorama de crise económico-financeira que se atravessa, afirmando que “o vinho está a ser um dos produtos com mais peso nas exportações”, constantando que “muita gente não se apercebe que, neste momento difícil, existe um produto em Portugal que se está a afirmar e a levar o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo”.
Este “grande valor acrescentado” dá também projecção ao concelho, “que há muito tempo tem fama de ter muito vinho, mas que presentemente conseguiu elevar a qualidade deste produto ao mais alto nível”, acrescentou Vítor Varela.
O Museu Rural e do Vinho, enquanto “ex-libris do concelho”, há 26 anos que desenvolve uma actividade de preservação e divulgação, não só das tradições ligadas ao vinho, como igualmente dos hábitos e costumes da região do Ribatejo, sem esquecer o seu papel dinamizador e de aproximação da cultura à comunidade, sobretudo dos mais jovens – objectivo conseguido também através do Projecto Educativo.
“O Vinho na Gastronomia” em debate
Três técnicas do Núcleo de Investigação em Engenharia Alimentar e Biotecnologia do Instituto Piaget associaram-se às comemorações do Museu, trazendo ao Cartaxo uma abordagem a diferentes temáticas ligadas ao vinho.
Natália Osório começou por fazer uma breve caracterização da videira, passou pela descrição da composição química da uva, terminando a sua apresentação com os métodos e processos associados à produção do vinho.

Ainda que sejam variáveis consoante as instalações e equipamentos utilizados e o tipo de vinho, o processo de vinificação contempla operações fulcrais, e foi nelas que Natália Osório se debruçou – colheita e transporte de uvas, recepção e colheita da amostra, esmagamento e desengace, esgotamento e sangria, prensagem, preparação para fermentação, encubação, fermentação, conservação, estágio e engarrafamento.
Como mensagem principal, Natália Osório sublinhou que “uma matéria-prima de qualidade gera um produto de qualidade , se todo o processo for feito de forma cuidada e controlada”.
“O vinho e a saúde” foi o mote da apresentação de Crisitiana Nunes, que se centrou nos benefícios que o consumo moderado de vinho proporciona, sobretudo ao nível da prevenção de várias doenças.
Na antiguidade o vinho estava ligado à medicina, a partir do século XIX a visão do consumo de vinho enquanto medicamento começou a mudar, fruto também dos vários estudos que se foram desenvolvendo, e que passaram a identificar alguns malefícios. “Entretanto, os anos 70 trouxeram novos conceitos. Vários estudos demostraram uma relação directa entre o consumo de vinho e a prevenção de doenças coronárias, e a comunidade médica começou a associar o vinho a algum efeito benéfico, em quantidades moderadas”, referiu Crisitana Nunes.
Esses benefícios estão associados essencialmente aos antioxidantes, designadamente os polifenóis, que “têm propriedades excelentes para prevenção de várias doenças”, entre as quais o colestrol, doenças do cérebro, doenças respiratórias e digestivas, diabetes, anemia, problemas de visão e cancro.
Contudo, “a palavra de ordem é cautela, porque as bebidas alcoólicas em excesso estão relacionadas com muitas doenças”, reforçou Cristiana Nunes, que acrescentou outra regra à mesa: “ao lado de um copo de vinho ter sempre um copo de água, para serem bebidos alternadamente, porque o teor alcoólico do vinho provoca a perda de equilíbrio de líquidos no organismo”.
Anabela Raymundo associou o vinho à área da inovação e de desenvolvimento de novos produtos. “Gerar inovação é concretizar ideias novas na produção de algo que é novo ou de algo que tem de constituir uma mais-valia para a empresa e para o sector”, começou por frisar, acrescentando que essa atitude “traduz-se em vantagem competitiva”.
“Inovar já não é uma opção, é um imperativo”, defendeu, porque “não é possível um país progredir se a inovação não for algo bem vivido, ela tem que ser a força matriz para o desenvolvimento e um meio de afirmação no mercado nacional e internacional”, justificou.
Para Anabela Raymundo, são muitas as potencialidades do sector do vinho, “que tem de ser visto numa visão integrada de fileira”, explorando os produtos à base de vinho, a valorização dos sub-produtos, os novos vinhos e o enoturismo.

Como exemplos, Anabela Raymundo fez referência à integração do vinho na lista de ingredientes de muitos novos chefs de cozinha, aos suplementos alimentares e cosméticos criados a partir de compostos da uva, aos novos vinhos criados com baixo teor alcoólico e ao enoturismo.
“Inovar é preciso, assim como promover a proximidade entre os produtores, indústrias e unidades do sistema científico e tecnológico nacional, para o desenvolvimento de projectos em parceria”, acrescentou.
Exposição e livro “O Silêncio das Cegonhas”
No dia 23 de Novembro, as cegonhas foram o centro das atenções. “O Silêncio das Cegonhas” é o título da exposição de fotografia inaugurada neste dia e que estará patente no Centro de Promoção Vitivinícola do Museu até dia 18 de Dezembro.
A exposição é da autoria dos irmãos Pedro Inácio e Carlos Inácio, que paralelamente lançaram um livro com o mesmo título e que apresenta um vasto conjunto de fotografias, acompanhadas de textos.
O trabalho fotográfico dos dois irmãos foi iniciado em 2005 e permitiu registar diversos comportamentos das cegonhas em múltiplos habitats, proporcionando a captação de mais de 3000 imagens destas curiosas aves que nidificam um pouco por todo o nosso território.

A exposição já foi apresentada em vários municípios do país, sobretudo do Norte Alentejano e Algarve, e tem a particularidade de ser apresentada pela primeira vez num concelho do distrito de Santarém.
Pedro Gil, vereador da Câmara Municipal responsável pela área do Turismo, marcou também presença nas comemorações do aniversário do Museu, tendo enaltecido a importância da inauguração da exposição nesta data, a qual “enriquece” as comemorações e contribui para dinamizar o espaço museológico.
António Nabais, director científico do Museu, foi convidado a fazer a apresentação do livro, tendo também dissertado sobre o tema. “As colónias de cegonhas que ainda existem um pouco por toda a parte, e na nossa região sobretudo nas margens do Tejo, constituem um património natural que vem ao nosso encontro e que pode ser explorado em termos turísticos. Este livro ajuda-nos a descobrir um pouco desse património”, sublinhou.
A propósito do 26.º aniversário do Museu, António Nabais considerou este espaço museológico como sendo “uma pérola da museologia”, uma vez que é um dos poucos museus portugueses a constar no Roteiro Michelin, sendo também um espaço que “tem primado por uma actividade dinâmica e de grande proximidade com a comunidade, fruto do muito esforço desenvolvido pela equipa deste museu”, referiu.