O historiador Rogério Coito, de 72 anos, partilhou as suas memórias e as suas histórias no dia 30 de Dezembro, no decorrer da última edição das Conversas na Taberna do ano de 2009
O campo, a aldeia, a escola, a comunidade. Lugares e histórias. Recordações e saudades. É na pequena povoação da Ereira que nasce, em 1937, Rogério Coito.
Das lembranças mais antigas, recorda ainda muito vivamente acontecimentos que caracterizavam as vivências da sua terra, numa outra época – numa época em que se vivia das senhas de racionamento, em que o café era adoçado com rebuçados, o pão era comprado a fiado e da bexiga do porco se fazia uma bola de futebol.
Por sua vez, parecem ser os tempos mais difíceis que teimam em não abandonar o campo das memórias. Mas não importa. Porque fazem parte da história, ainda que por vezes seja duro recordá-los.
“Tenho uma grande lembrança de ver a minha mãe ir de burro a Vila Nova de São Pedro buscar farinha para fazer pão. E do café que se bebia ao pequeno-almoço que, pela falta de açúcar, era adoçado com rebuçados. Mas não se gastava todo de uma vez, guardava-se para adoçar o café dos dias seguintes”.
O ganha-pão dos homens e mulheres era o campo. Sobretudo a vinha. Por isso, quando chovia – e Rogério Coito recorda ainda de terem existido 14 semanas de chuva consecutiva – os homens juntavam-se na adega. Faziam uma grande fogueira no interior deste espaço e ali passavam as tardes, ora conversando, ora bebendo um copito.

O ano de 1946 foi “um ano de fome e de sede”. Não é que as suas recordações guardassem esse registo, mas a expressão está escrita no verso da imagem de um santinho, que recentemente encontrou entre os seus papéis mais antigos.
Os brinquedos inventavam-se. “Até das bexigas do porco se faziam bolas para brincar”. E os carros eram feitos de cana. Mas na escola, as brincadeiras ficavam à porta. De um lado as raparigas, do outro os rapazes. Ensinava-se severamente. Aprendia-se decorando.
Nas ocasiões especiais, os dois grupos – rapazes e raparigas – juntavam-se. Eram momentos de festa, repletos de peripécias, que jamais irão deixar a memória de Rogério Coito. “Eu era sempre um dos escolhidos para dizer poesias bucólicas. Ainda me lembro de algumas. Eu e o meu amigo Tomás fazíamos uma dupla de sucesso. Ele ficou até conhecido como o Dr. que se assoava às mangas, por causa de uma récita que fazíamos – eu era o homem pobre e ele o homem rico. Ele costumava andar sempre engripado e nessa récita, em que ele estava todo muito aprumado, com chapéu e bengala – um verdadeiro doutor – no final, assoou-se à manga. Todos se riram”.
Os espectáculos do cine-sonoro sempre o encantaram. “Quando ouvia o carro com os altifalantes a anunciar os espectáculos ficava todo contente”. Ainda guarda, cuidadosamente, o cartaz de 1953, a anunciar o filme “Chaimite”, do cine-sonoro do Ribatejo – um dos seus preferidos.
Depois da 4.ª classe, concluída com distinção, Rogério Coito foi trabalhar para uma taberna na Ereira, onde ganhava 200 escudos – “muito bom naquela época”. Mas isso limitava-o um pouco. “Eu gostava também muito de teatro. Imitava os amadores, decorava tudo. A Ereira teve sempre muito bons amadores de teatro. E eu cheguei a ter uma oportunidade de fazer também uma peça, eles precisavam de um miúdo e foram falar com o meu patrão, mas ele não me dispensou para poder ir aos ensaios”.
Os bailes, além de constituírem um dos principais momentos de convívio destes pequenos lugares, eram também das poucas oportunidades que os rapazes tinham para se aproximarem das raparigas. A célebre expressão “a menina dança” marcou toda uma época, na qual os rapazes dependiam de um sim para poderem dançar ao som da música.
“A taberna era como um confessionário. Por vezes ouvia um ou outro a dizer que foi ao baile a Pontével e que não conseguiu dançar uma única moda”. Na Ereira, haviam duas salas de baile: uma para a elite, com música de cordas, que se chamava o baile da tuna, e outra para as pessoas do campo e empregados de servir, conhecido pelo baile da música.
“Eu frequentava os dois. Era um momento extraordinário. Vinha muita gente de fora. Rapazes! Porque as raparigas só passaram a sair da aldeia a partir dos anos 70/80”.
Mas a geração de Rogério Coito teve o privilégio de assistir, nos anos 60, a um momento que alterou toda esta realidade dos bailes – a chegada da música dos Beatles. “Foi um momento histórico de emancipação. Homens e mulheres já não precisavam de par para irem dançar para o meio do arraial. A partir daí, os bailes passaram a ser diferentes”.
Com a chegada da televisão, Rogério Coito passou a encantar-se com os programas do João Villaret ou os teatros do Ramada Curto. Mas no início, os aparelhos eram muito escassos. “Lembro-me das pessoas com os bancos à cabeça a dirigirem-se para a Casa do Povo, para irem para lá ver televisão”.

Decidiu continuar a estudar para concorrer aos exames. Fez o 1.º ciclo na Ereira, com 18 anos. Nessa altura, já colaborava com os jornais. Escrevia para o jornal do Cartaxo e era correspondente do Diário Popular. Entre as suas histórias transcritas para o papel e divulgadas na imprensa da altura, ganharam destaque as reportagens que fez de uma senhora que completou 100 anos, que chegou às páginas d’ O Século, e da filha de um ferreiro da Lapa que ganhou uma bolsa de estudo para tirar o curso de Magistério Primário no Cartaxo e cuja distância percorria diariamente a pé.
Sempre com o desejo de ir para Lisboa, acabou por trabalhar alguns anos no Cartaxo, no café Monumental. Mas era a grande capital que o cativava. O emprego era difícil e a falta de habilitações ainda dificultava mais esse objectivo. Por isso decidiu fazer o 5.º ano, por partes – primeiro a secção de Letras, depois as Ciências, e fez ainda o 7.º ano, por cadeiras.
Concorreu para os Correios, onde foi aceite, e para o Hospital Júlio de Matos, onde também trabalhou. Por fim, em 1969, concorreu à Emissora Nacional, para coordenador de emissão, tendo sido o escolhido para desempenhar essa função. Foi um trabalho que lhe deu uma grande satisfação e lhe permitiu trabalhar ao lado de figuras importantes do panorama nacional. As emissões para a Índia, Guiné ou Venezuela foram espaços que chegaram a fazer parte do seu dia-a-dia profissional.
Apaixonado pelas letras e pela história dos povos, seus costumes, saberes e lugares, Rogério Coito acabou por se licenciar em História, na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, enquanto desempenhava as funções profissionais.
E foi o gosto e a destreza pela escrita, que o levou a escrever várias obras, sobre temáticas locais, com o pseudónimo de Luís de Montejunto. Das suas obras, destaca-se o livro “Ereira – Uma aldeia no concelho do Cartaxo”, publicado em 1983, juntamente com Carlos Santos.
Muitas mais histórias guarda este historiador. Mas o que vale a pena dizer é que as suas vivências encerram uma história de vida riquíssima, sem fim à vista.
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