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Página Inicial > Informação > Arquivo > Notícias > Ano 2009 > n_conversas_taberna_joaquim_barrela
2009-05-06

As "horas indeterminadas" de um ofício

Chama-se Joaquim Barrela e é um dos barbeiros mais antigos do concelho do Cartaxo. Com 83 anos, ainda mantém abertas as portas do seu estabelecimento, em pleno centro da cidade. Foi o convidado da 12.ª edição das Conversas na Taberna, que se realizou no dia 29 de Abril, no Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo.

Quando alguém traça o destino por nós, sem pedir licença, o mundo desaba. Adiam-se os sonhos, muitos deles para um horizonte bem longínquo, alimentam-se contrariedades, vive-se desmotivado. É assim a maioria das vezes, mas nem sempre.

Joaquim Barrela tinha 13 anos quando passou por uma situação semelhante. “O meu irmão arranjou-me um trabalho para barbeiro. Eu não queria, fartei-me de chorar, porque queria ser mecânico”. Estávamos nos anos 30 e os automóveis preenchiam os olhos de Joaquim Barrela. Era para ter estado na barbearia apenas até o irmão encontrar uma oficina, mas esta nunca apareceu.

Mas não é um começo menos feliz que faz com que a história acabe mal. Joaquim Barrela aprumou-se no ofício, passou por várias barbearias e com pouco mais de 20 anos já tinha o seu próprio estabelecimento. “Há 60 anos que tenho a minha barbearia, é um dos estabelecimentos mais antigos da cidade do Cartaxo”.

Fica junto à Praça 15 de Dezembro e é um espaço que conserva ainda os traços de uma outra época. A cadeira antiga é o elemento que mais evidencia o passar dos anos. “Todo o equipamento está como há 60 anos. Modifiquei muito pouco. Dantes tinha duas cadeiras, agora só tenho uma. E muitas vezes está vazia”.

Com 83 anos, é um homem que se pode dar ao luxo de trabalhar a “horas indeterminadas”, como consta na informação afixada na porta da sua barbearia. É por luxo, mas também por necessidade e devido à “fraqueza das pernas”. “A reforma é pequena, tenho de trabalhar. Fecho e abro para não ter uma obrigação. Mas se combinar com um cliente, posso servi-lo fora de horas”.


Na altura em que os homens passavam pela barbearia mais do que uma vez por semana para “fazerem a barba”, Joaquim Barrela estava no auge da sua carreira. Era uma época em que “se faziam mais barbas que cabelo” e em que os homens optavam pelo “caldinho” para evitarem cortar o cabelo mais amiúde e para poupar alguns tostões.

Hoje o cenário é diferente. Joaquim Barrela continua a ter gente na sua barbearia, não tanto para cortar o cabelo, mas para pôr a conversa em dia. À semelhança de outros espaços do género, a barbearia era o centro das informações e o barbeiro o principal confidente. “Nem comprava o jornal, não valia a pela. Sabia-se de muita coisa, mas há segredos que não se dizem. Ao barbeiro esconde-se muita coisa”.

A sua barbearia continua a ser um ponto de encontro e até de convívio. “Às vezes apanho lá barrigadas de rir. Nos dias em que não aparece ninguém ficamos ali na paródia”. Enquanto pessoa respeitada e que inspira confiança, o barbeiro assumiu em tempos um papel também importante no aconselhamento médico. Joaquim Barrela “nunca quis pôr o pé na poça”, mas dentro dos seus “modestos conhecimentos”, chegou a dar algumas indicações.

“O José Estrela apareceu-me lá um dia com caspa na cabeça. Eu já tinha ouvido dizer que a água ardente bagaceira era boa para isso. Com cautela, disse-lhe para pôr. E não é que começou a ganhar mais cabelo e o cabelo a ficar preto!”.

São histórias que marcam um ofício e uma vida. E a vida de Joaquim Barrela não foi monótona. Tirou partido do movimento da então vila do Cartaxo, das pessoas que passavam, que entravam, mais não fosse para fazer um cumprimento. Tirou partido da sua independência, da sua forma de estar, da sua forma de trabalhar.

Olhando para trás, há momentos que não se esquecem. Que ficam gravados na memória para sempre. É o caso dos copos de vinho branco que José Sarrazina lhe ofereceu antes do almoço, “para lhe abrir o apetite”, e depois, “para que o almoço lhe caísse bem”. É o caso dos seus passeios de bicicleta até aos Casais Lagartos ou Vila Chã de Ourique, que fazia em bicicletas emprestadas, porque “só em homem” é que teve a sua. É o caso das viagens que fez enquanto “sobrevivente das caliças”.

Quando as saudades apertam, são estes momentos que recorda. E como sabe sempre melhor não recordá-los sozinho, tem a sorte de ter quase sempre alguém a transpor a porta do seu estabelecimento, para aí, nesse espaço onde tanta coisa se passou, fazer uma viagem até onde lhe apetecer, neste longo caminho que é a sua vida.




GIC | CMC | Mai09
comunicacao@cm-cartaxo.pt





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