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2009-07-01

FAZENDO BEM AS CONTAS À VIDA, HÁ SEMPRE LUGAR PARA OS OUTROS

À mesa das Conversas na Taberna sentou-se desta vez, no dia 24 de Junho, um técnico de contas, reconhecido também no Cartaxo pela dedicação ao voluntariado

Um homem que toda a vida lidou com a precisão e rigidez dos números e dos cálculos, encontrou no voluntariado e no associativismo a sensibilidade, o gosto de ajudar os outros, a vontade de fazer mais pela sua terra.

Domingos Crucino foi na sua infância um menino igual a tantos outros que cresciam no Cartaxo, terra de grandes vinhas, de pessoas rurais. Mas distinguiu-se na adolescência, quando conseguiu a única bolsa de estudo no Colégio Marcelino Mesquita, que lhe permitiu seguir os estudos e tirar o Curso Comercial.

Paralelamente à aprendizagem das contas e da relação entre os números, Domingos Crucino foi desenvolvendo o gosto por outra área, bem mais sensível e humana. “Foi aos 17 anos que ganhei amor ao Cartaxo e ao voluntariado”, recorda hoje, mais de seis décadas depois.

“Comecei a jogar futebol ao lado de homens que tinham idade para serem meus pais, depois veio o amor à camisola do Cartaxo”. Praticava a modalidade sem qualquer pretensiosismo, “não é como agora, que desde pequenos começam a pagar-lhe no futebol. Nós nem água quente tínhamos nos balneários”.

Mas teve um privilégio que nem todos os jogadores hoje, com muito mais facilidades e condições que outrora, conseguem alcançar: vestir a camisola do Benfica, seu clube do coração. “Aos 17 anos levaram-me a treinar lá. Ainda joguei um jogo pelo Benfica, mas na altura só se podia jogar com 18 anos. Quando completei a maioridade e me convidaram, já estava empregado no Cartaxo e não aceitei”.

O seu “grande mestre” foi Joaquim Mendes, “figura maior no Cartaxo no voluntariado, homem de picarias e do futebol. Foi ele que me arrastou para estas coisas, que me inspirou”.


Domingos Crucino, hoje com 77 anos, passou a herdar também o título de “homem do voluntariado”. Foi tendo essa dedicação ao mesmo tempo que desempenhou a sua função de contabilista, guarda-livros ou técnico de contas, nomes que foram sendo adoptados para designar a sua vida profissional ligada aos números.

Não foram só os nomes que evoluíram, desenvolveram-se também os métodos e os instrumentos de trabalho. “Custou-me largar a prancheta para pegar no computador, mas depois de nos adaptarmos vemos que o computador é uma coisa extraordinária. Ainda assim, tendo sempre a regressar às coisas manuais. Gosto de continuar a assentar tudo à mão”.

Neste progresso tecnológico, Domingos vê que nem tudo trouxe mais-valias. “Dantes puxava-se mais pela cabeça. Agora não. Eu consigo somar uma folha inteira de números e sei porque se debita e credita uma conta. Não sei se todos os que estudam agora sabem isso”. Mas era também tudo mais moroso, admite. “Chegávamos a conferir todos os movimentos à procura de meio tostão. Tínhamos de descobrir a diferença”.

Trabalhou sempre no Cartaxo. Depois de passar por cinco empresas, estabeleceu-se por conta própria, já lá vão 25 anos. Há quatro que deixou de exercer a profissão e não tem saudades dos números.

Recorda com bem mais nostalgia a construção da actual sede do Ateneu Artístico Cartaxense. Ele e Manuel Barroca foram dois dos cartaxeiros que mais se têm dedicado a esta colectividade, desde o início. A Domingos Crucino, o Cartaxo deve também a valorização do Museu de Miniaturas, que existe desde 1931, mas que este ano foi reorganizado numa sala mais ampla do primeiro andar do Ateneu.

A este novo espaço, Domingos gostaria de dar uma nova vida, uma nova dinâmica. “Gostaria que voltasse a ser visitado como foi noutros tempos. Qualquer pessoa importante ou governante que viesse ao Cartaxo, ia sempre visitar o Museu de Miniaturas, que é único em Portugal”.

Nas actividades associativas em que participou, era-lhe sempre atribuída a função de tesoureiro. Depois de ter passado pelos diferentes órgãos sociais do Ateneu, regressou este ano à direcção, e precisamente com as essas funções. “Sou da opinião de que os serviços administrativos podem estar muito melhor, por isso aceitei o cargo”.

Um pouco por todo o lado, são pessoas como Domingos Crucino que vão continuando a ocupar estes lugares, de forma despretensiosa, humilde, voluntária. Apenas em troca de se um simples reconhecimento, de um sorriso, de um aperto de mão. “Às vezes interrogo-me se continua a existir voluntariado. Porque os que vejo, são quase sempre os mesmos de antigamente”. 






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