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2009-11-27

Mourel Costa, na 18ª edição das Conversas na Taberna

Aprender e ensinar - assim se toca a vida

No dia em que os Bombeiros Municipais do Cartaxo completaram 73 anos de existência – 25 de Novembro – o Museu Rural e do Vinho convidou para se sentar à mesa da sua taberna um cartaxeiro que se dedicou às adegas, aos lagares de azeite e às fanfarras.

Foi mais do que um “homem dos sete ofícios”. A sua vida foi uma escola para si e para os outros. O interesse pela descoberta, a vontade de aprender, a dedicação que confiava, tanto aos trabalhos mais simples como aos mais complexos, fez dele um homem respeitado, sabedor das coisas, sem nunca deixar de ser sensível e humano.

“Nasci no Cartaxo, na Quinta do Rio da Ponte. Acabei de nascer, a minha mãe morreu. Começou logo aí o meu azar”. Apesar dos infortúnios que tornaram a sua infância mais cinzenta, Mourel Costa nasceu com a habilidade nas mãos e com o método na cabeça. Nunca subestimou as suas capacidades. Estava ciente delas e decidido a aproveitá-las.

“Fui criado na Ereira. Éramos todos amigos, mas havia uma grande rivalidade entre a Ereira e a Lapa. Às vezes era pedrada a ferver! E eu era o chefe, era eu que tinha de reparar sempre as coisas entre a rapaziada”.

Teve como professora Filomena da Costa Real, “prima do Dr. Salazar. Ela tinha umas amigas na Maçussa e eu era o carteiro dela. Passei com 16 valores, todo esfarrapadinho. Era briga a toda a hora, porque todos copiavam por mim. Cheguei a dizer ao meu camarada Virgílio Clemente: eu vou para a tua casa ensinar-te, mas não copias aqui por mim, porque depois é nas minhas mãos que elas caem”.

Ainda “rapazola”, com 16 anos, foi trabalhar para os Morgados, onde aprendeu tudo acerca do campo. Mas o saber não lhe caía de pára-quedas nas mãos. Tinha de estar atento para aprender e ter destreza para continuar a fazer. “Eu era ajudante de capataz. Gostava de ver como faziam, para depois ir fazer sozinho”.

Foi nesta quinta que começou a contactar com o lagar de azeite. A caldeira, “já muito moderna para aquele tempo”, passou a ocupar-lhe os dias. Interessava-se por tudo o que era mecânico e foi depois na Aramanha que teve oportunidade de mostrar as suas capacidades nesse área, durante a reparação da maquinaria do lagar.

Do azeite, passou para o vinho. Em 1946, a Aramanha “tinha uma adega muito moderna, uma das melhores do Ribatejo”. Quando o caseiro Joaquim Marques adoeceu, foi ele quem ficou a tomar conta da adega. Na altura, modestamente, disse ao patrão que “não percebia muito bem das coisas”, mas afinal, “a adega era muito fácil de trabalhar”.

Ainda assim, Mourel Costa andava sempre com o olho atento, a ver o que Joaquim Marques andava a fazer. Aprendeu sozinho a analisar o vinho e descobriu uma forma de fazer mover os grandes cascos de aguardente, enquanto o caseiro estava a ouvir um jogo do Benfica. “Ele chateou-me toda a tarde para saber como é que eu, sozinho, tinha conseguido tirar dali o casco”. 

E do vinho, passou para o arroz. Na Aramanha, pelos campos que se estendiam até ao Setil, cultivava-se muito arroz. “Mas lidar com o arroz não era fácil. O mestre do secador era o José Inácio. Assim que me apanhou lá, pirou-se logo. Fiquei sozinho, a trabalhar sábados e domingos. Eu queria paródia e não tinha tempo para nada”.

Do arroz, foi para os extensos campos da lezíria, trabalhar com os tractores. A mecânica era diferente, mas não mais difícil para Mourel. “Eu trabalhava com aquilo tudo. O meu tractor gastava metade do gasóleo dos outros. O patrão desconfiava que andavam a roubar combustível e eu fiquei encarregue de tomar conta do gasóleo. Só trabalhava para me esfarrapar”.

Depois de suportar a dureza dos trabalhos no campo, Mourel Costa foi para a tropa, em 1947, para as Caldas da Rainha. Também aqui, as suas capacidades fizeram de si um privilegiado, mas numa área totalmente diferente. “Quando pediram pessoal para ir para os clarins, eu dei logo um passo em frente. Passados poucos dias, já soprava que era uma categoria”.

Tinha bom ouvido e aptidão para a música. “Eu chegava a dizer ao sargento: mas eu é que sou o sargento, para ensinar aos outros? Mas realmente os meus colegas ouviam os discos e não apanhavam nada!”

Um dia, o sargento propôs-lhe um desafio: formar uma fanfarra. “Eu nem sabia o que era isso, até perguntei ao sargento: é um instrumento?”. Acabou por fazer uma fanfarra “que foi uma maravilha”. Em 1949, fez uma parada em Lisboa, para o presidente da República, Marechal Carmona. A brilhante actuação mereceu-lhe um louvor.

Mas a vida militar não era carreira para ele. Entrou depois para a Junta Nacional do Vinho, onde se reencontrou com a adega. Trabalhou com duas caldeiras, “sempre com a aguardente no ponto”.

De seguida, foi para a quinta de Manuel Duarte de Oliveira, onde continuou a aperfeiçoar os seus conhecimentos na adega. Nesse mesmo ano, 1951, entrou para os Bombeiros Municipais do Cartaxo, onde mais tarde voltou a ser solicitado para o desafio de formar uma fanfarra. Mais uma vez, esteve à altura.

“O comandante António Ferreira queria que eu formasse uma fanfarra num mês, para fazer uma guarda de honra ao Presidente da República, que vinha a Santarém. Fiz uma lista de material – 4 caixas, 1 bombo, 4 clarins e 1 requinta. Foi a D. Lurdes, do Manuel Duarte de Oliveira, que pagou a compra dos instrumentos”. E fez mais – dispensou-o dos serviços na quinta para preparar a fanfarra para esse grande acontecimento em Santarém.

Mourel Costa voltou a sair-se muito bem. “Fiz os sinais todos para o Presidente. Ele olhou para mim uma série de vezes, se calhar admirado, a pensar como é que este sabe estas coisas todas. Tive sorte, porque os quatro clarins saíram-se muito bem”.

 


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