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2009-10-29

É caso para dizer: isto é obra!

Á mesa da taberna do Museu Rural e do Vinho sentou-se desta vez Manuel Oliveira Pato - o construtor civil que mais edificações fez na cidade do Cartaxo. A sua vida foi contada na 17.ª edição das Conversas na Taberna, no dia 28 de Outubro.

Ao longo da vida, cada um vai deixando as suas marcas. Uns de uma forma mais expressiva, outros de maneira mais modesta, todos constroem, conquistam, se aperfeiçoam.

Manuel Oliveira Pato construiu a sua vida alicerçada no trabalho e na família. Deixou obra feita, tanto visível, no espaço público, como outra menos mensurável, que enriqueceu aqueles que com ele conviveram, através da partilha de sabedoria, amizade e consideração.

Manuel Oliveira Pato tem 86 anos e nasceu em Pernes. Em 1950 escolheu o Cartaxo para viver, depois de uma caminhada nem sempre fácil, mas meritória, pela capital portuguesa.

Dias depois de ter sido aprovado com distinção no exame da 4.ª classe, “alinhou na serventia”. Dos 11 aos 16 anos trabalhou na construção civil. Depois, foi para a capital, com a esperança de que um tio, que era fiscal no porto de Lisboa, lhe arranjasse trabalho. Ficou instalado numa casa na Madragoa e por aí permaneceu. “O meu tio queria que embarcasse nos barcos como ajudante de cozinha. Todos os dias, por volta das dez horas, ia lá perguntar. Mas nada”.

Sem ver um destino concreto à sua frente, e na falta de novas oportunidades de trabalho, foi servir para uma taberna e carvoaria, que ficava na Rua do Machadinho. Ficou lá um ano, tempo suficiente para conhecer os cantos à casa e também os seus segredos. “Havia sempre uma garrafinha de água debaixo do balcão, para que o vinho não fizesse mal aos fregueses!”

Era um truque que funcionava com todos os clientes, fosse a servir ao copo ou ao garrafão. “Havia um senhor que costumava lá ir buscar cinco litros de vinho. Assim que lá chegava, punha o garrafão em cima do balcão. O Sr. Maximino metia logo conversa com ele, a entretê-lo. Pronto, tinha de levar sempre meio litro de água!”

Nesta altura, Manuel Pato não fazia a mínima ideia do que o futuro lhe poderia reservar. Mas o seu tio tinha algo mais no horizonte. “Um dia disse-me: vais estudar”. Fez o 1.º e 2.º anos na Escola Fonseca Benevides e depois seguiu para a Escola Machado Castro, onde se especializou em Mestre de Obras de Construção Civil.

Acabou o curso com 23 anos. Começou por fazer uns biscates em Lisboa, “mas as coisas não correram bem. Embora eu me entusiasmasse, porque um mestre para quem trabalhei já tinha naquela altura um conto de réis de rendimento por dia”.

Aos 26 anos casou e, como o sogro tinha uma casa no Cartaxo, aproveitou para se instalar aqui. “Assim que a minha mulher engravidou, pensei que aquilo não era vida para mim e fui novamente para Lisboa trabalhar. Cheguei a dormir no chão em cima de uma manta de retalhos, numa obra desabitada”.

Regressou ao Cartaxo e foi então que a vida lhe começou a sorrir a sério. O prédio que construiu junto à sua casa, com a ajuda do sogro, foi o ponto de partida para uma nova carreira. “Quando o meu prédio já estava adiantado, pediram-me para fazer um prédio igual. A partir daí, nunca mais parei. Trabalhava de noite e de dia”. Tanto ao ponto de dizer hoje: “pensei sempre muito nos filhos. Esqueci-me de viver”.

Tornou-se o construtor com o maior número de construções erguidas no Cartaxo. Além dos prédios particulares, construiu a Casa do Povo, o Inatel, o Lar de S. João, a Igreja de Aveiras de Cima e o Hospital de Albergaria-a-velha. Foi durante o tempo que esteve a construir esta última obra que ganhou o gosto por um dos poucos passatempos com que se ocupou: jogar dominó ao “rebenta” – “mas não era a dinheiro, quem perdia pagava cafés”.

Foi também o primeiro construtor a inscrever-se na Câmara Municipal, onde mais tarde chegou a desempenhar funções de vereador. “Betão armado, não havia nada por aqui, fui o primeiro a fazer isso. Os prédios mais antigos que se vêm por aí, fui eu que os fiz todos, sozinho com o meu pessoal”.

Sincero e exigente. Assim se define a sua postura no trabalho. “Nunca explorei o pessoal, trabalhava-se durante aquelas horas, aproveitava bem a mão-de-obra e tinha bons operários. As pessoas ficavam admiradas como é que se construía tanto com tão pouco pessoal”.

Era assim este homem – uma grande referência para muitos outros construtores. Um bom mestre que marcou ruas um pouco por toda a cidade. Agora, seguem-lhe o exemplo os filhos: um construtor e uma engenheira de construção civil.

 



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