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Página Inicial > Informação > Arquivo > Notícias > Ano 2009 > n_conversasTaberna13
2009-06-02

Museologia não se aprende, sente-se

Desta vez, as Conversas na Taberna proporcionaram uma viagem pela área da museologia. António Nabais, director do Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo, foi quem se sentou à mesa da taberna, no dia 27 de Maio, não para interpelar, como habitualmente, mas enquanto protagonista desta 13ª sessão.

Muitas vezes são as circunstâncias, e não as coincidências, que levam alguém a seguir um determinado caminho. Determinadas situações, conjunturas que nos atraem para um percurso que não está nem nunca pareceu estar no nosso horizonte, mas que, por imposição de uma força superior, seja ela qual for, nos empurram nessa direcção.  

É então que reparamos que as coisas se começam a encaixar, a fazer sentido, a ganhar corpo. Como um fio de lã que se transforma numa malha e que, por sua vez, conduz a um produto pertinente, completo, válido, consistente.  

Poucos esperavam que António Nabais se tornasse museólogo e que hoje fosse o rosto de um dos museus do vinho mais conceituados do país. Ele próprio não traçou esse caminho. E a família também não, ainda que o motivasse para a história e para as artes.  

“Nasci no campo, onde vivi momentos muito agradáveis. Guardo muito boas lembranças da minha infância”. Foi em pequeno, com 5 anos, que António Nabais visitou o primeiro museu: o Museu Grão Vasco. Quando terminou a 4.ª classe, teve o privilégio de conhecer os principais monumentos nacionais, numa viagem que fez com o pai, de norte a sul do país.  

“Lisboa foi a minha grande paragem. É uma cidade que tenho dentro de mim. Todos aqueles sons e odores marcaram-me muito. A água dos chafarizes, o som dos eléctricos, a peixeira e o homem dos jornais”.  

Depois da viagem pedagógica e cultural que fez com o pai, nunca mais pensou nem entrou num museu. “Fiz toda a minha faculdade sem ter entrado em museus. Só no ensino, quando comecei a dar aulas, é que os comecei a visitar”.  

Formou-se em História, frequentando inicialmente a Faculdade do Porto e depois a de Lisboa, onde terminou o curso. Na altura, era um jovem que não queria cortar as referências e as raízes que o ligarão para sempre a São Vicente de Lafões, Oliveira de Frades, Viseu, onde nasceu há 61 anos. “Nas férias, continuava a ir para o campo. E achava graça as pessoas dizerem que não era normal ver alguém que andasse a estudar com a enxada na mão”.  

Aproveitando uma bolsa de estudo, fez um interregno na sua profissão de professor para se dedicar a uma pós-graduação em Museologia. Foi no Seixal que começou por desenvolver os primeiros projectos e foi também aí que a comunidade o envolveu naquele que viria a ser o seu primeiro grande desafio na área dos museus.  

“Foi no contacto com as pessoas que surgiu o museu. Inicialmente era para se fazer uma exposição temporária, mas os objectos recolhidos e a cedência por parte da Câmara de um espaço de 800 m2 levou-me a sugerir uma exposição de carácter permanente. Foi a vontade das pessoas que levou à criação do museu”. 

O seu “segundo bebé” foi o museu do Cartaxo. “A D. Cecília Barbosa, do Cartaxo, era minha aluna e um dia disse-me se eu não me importava de ir fazer um museu ao Cartaxo, e pôs-me em contacto com o presidente da Câmara de então”. Na comunidade do Cartaxo, foi igualmente bem recebido. “Todas as pessoas abriram-nos as portas e também o coração. Estavam entusiasmadas com o museu”.  

Em 1994, “o presidente da Câmara Municipal da altura entendeu que o trabalho estava concluído” e então verificou-se um interregno no trabalho que vinha a ser desenvolvido. “Mas o trabalho não devia de ter parado, porque depois da inauguração é necessário manter o museu vivo e activo. Um museu não pode ser apenas salas de exposição estáticas”.  

Passados 10 anos, António Nabais regressou novamente ao museu do Cartaxo, onde tem estado em permanência, a trabalhar com “uma equipa extraordinária, que se completa”. E numa perspectiva de envolvência de toda a comunidade nesta dinâmica cultural, tão identificativa da identidade de um concelho assumido como Capital do Vinho, “sem excluir ninguém”, o museu “tem estado atento a todas as vertentes do nosso património”. Razão pela qual decidiu, recentemente, dar a conhecer o património das forças de segurança, através de mais uma exposição temporária.  

E à pergunta até onde este museu pode chegar, sem hesitações, mas com modéstia, o nosso museólogo responde: “dentro desta linha, nunca vai parar. Não pode”.



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