Tomás Estêvão, 82 anos, conhece os férteis campos de Valada como as palmas das suas mãos. Aquela imensidão de verdes e castanhos, que se estende ao lado do azul do rio Tejo, recebe o seu olhar desde a juventude. São planícies a perder de vista, que Tomás Estêvão quase sabe de cor. Habituou-se ao cheiro intenso desta terra, da qual não se consegue afastar. É como se estivesse cativo desta beleza natural, digna de constar em qualquer cartão de visita.
Nasceu no seio de uma família de pequenos vitivinicultores e aos 10 anos já sabia fazer todos os trabalhos da vinha. “Era tudo manual. Cavávamos, pulverizávamos, podávamos, vindimávamos. Era o meu pai que dava ritmo ao trabalho”. Foi provavelmente com ele que aprendeu a ser exigente, mas compreensivo, ambicioso, sem nunca deixar de ser humano.
Desde pequeno que se apegou a estas lides do trabalho no campo. “Era muito trabalhador, e eu fui o que mais me entrosei. O meu irmão tinha outro feitio, não gostava tanto da vinha. Eu gostava”.
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Aos 25 anos veio para o Cartaxo e, assim que casou, passou a adoptar a freguesia de Valada como o seu meio de vida. Os 15 hectares de terra do seu sogro passaram para a sua responsabilidade e foi nesse momento que Tomás Estêvão sentiu que tinha oportunidade de colocar em prática muitas das suas ideias. “Vi nisso o princípio de alguma transformação”.
Aumentou o espaço entre as carreiras das cepas, passou a deixar as vides mais curtas aquando da poda, proporcionou uma produção mais homogénea e aperfeiçoou as técnicas da vinificação. Isto numa época em que “o vinho era a base de rendimento da agricultura, dava melhores condições de vida e colmatava a falta de trabalho, porque as vinhas ocupavam as pessoas praticamente durante todo o ano. Onde existiam vinhas, não havia crise”. Mas vivia-se de forma mais humilde, “mais honesta até”. |
O Cartaxo foi uma testemunha viva do desenvolvimento vitivinícola. Carros de bois carregados de tonéis de vinho atravessavam incessantemente o bairro e a lezíria até à Vala Real, de onde o vinho do Cartaxo era transportado de barco, “Tejo abaixo”, até Lisboa. Tomás Estêvão já não é desse tempo, mas recorda as qualidades do vinho carrascão, que para sempre há-de estar associado a este concelho.
“O vinho, para que não arrefecesse nos tonéis, tinha de ser grosso. Assim aguentava-se. Era um vinho muito bom, o carrascão, conhecido em todo o país”. Mas depois, com o desenvolvimento do vinho engarrafado, “verificou-se a corrida aos híbridos, que mancharam essa qualidade. Não tinham cor, eram delgados e muito verdes”.
E assim, a dificuldade em valorizar o vinho pareceu instalar-se. Das grandes colheitas saíam grandes quantidades de vinho, que depois “era vendido pelo preço da amargura”. E mais: “os agricultores tinham pouca capacidade de se impor, levados por um sistema de empobrecimento diário”.
O cenário entristece Tomás Estêvão, que muda imediatamente de feição quando volta a trazer à lembrança episódios dos dias passados entre as cepas, a cuidar da terra e do fruto. “As mulheres eram grandes trabalhadoras. Cavavam, apanhavam vides – ainda cheias de geada, logo pela manhã –, pulverizavam, e nos intervalos das pulverizações, desladroavam (retirar alguns rebentos). Trabalhavam oito horas no campo”.

“Cheguei a ter pessoal de Pombal, que ganhava 10 escudos. As mulheres da terra ganhavam 12, a trabalhar seis horas. Ganhavam 20, se trabalhassem oito horas”. Mas a ponte com o presente é inevitável: “hoje, se eu precisasse delas para ir para o campo, não tinha ninguém”. Mas a verdade é que foi também a mecânica que as mandou embora. “Uma máquina de vindimar põe de lado 40 mulheres”. Deixou, portanto, de haver trabalho para elas, embora as máquinas tenham “melhorado a qualidade de vida das pessoas, porque alguns trabalhos eram muito duros”.
Tomás Estêvão foi um bom gestor das suas propriedades. E um homem que gostava de dar o exemplo. “A trabalhar é que me entendia, por isso juntava-me ao rancho, participava no trabalho”. Tinha também um bom coração e sentia-se bem em remunerar devidamente quem contratava. “Fui sempre muito exigente, mas também muito amigo dos trabalhadores. Nunca fiquei a dever nada a ninguém”.
Durante 35 anos pisou os campos férteis de Valada. Depois foi armazenista, fazendo distribuição em Lisboa. Admite que também passou dificuldades, embora os trabalhadores não tivessem dado por isso, porque sempre cumpriu com os seus deveres de patrão.
De uma área que hoje aconselha timidamente para a vida futura, saíram muito bons trabalhadores e encarregados. “As pessoas tinham uma preparação diferente e encaravam o trabalho de outra maneira. Era o trabalho que segurava as pessoas. Hoje o trabalho desmotivou-se, já não há respeito por quem manda. Perdeu-se o hábito de trabalhar com qualidade, em qualquer área”.
Talvez isso agrave a crise de que hoje tanto se fala. Talvez por isso Tomás Estêvão classifique esta crise como “uma crise de mentalidades”. Uma crise que faz com que “as pessoas se sintam diminuídas por trabalhar no campo”.

São, na generalidade, sinais dos tempos. Mas ainda bem que continuam a haver as particularidades. Pessoas que herdaram o gosto pela terra e que seguiram as pisadas de Tomás Estêvão. Quem melhor o podia fazer do que o seu filho? Cultiva 90 hectares de terra, nos campos de Valada, que no ano passado renderam “dois mil contos por hectare”. Dali saíram brócolos, tomate, cevada, alho-porro e lombardo. Isto é para quem sabe – os homens da terra.