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Do Cartaxo a Lisboa é pouco mais de meia hora de viagem. Hoje é assim, graças às vias de comunicação terrestres que, de uma forma geral, permitem deslocações rápidas e cómodas entre os vários pontos deste nosso Portugal à beira mar plantado.
Com o rio aos pés, a capital portuguesa desde sempre estabeleceu pontos de encontro, convidando ao intercâmbio de pessoas e ao desenvolvimento do comércio. Uma união de interesses que permitiu aproximar as “termas do Cartaxo” de uma Lisboa cheia de vida e de sede do bom vinho produzido nos campos do bairro e da lezíria deste rico concelho do Cartaxo.

Pelo rio que as duas cidades têm o privilégio de partilhar já correu muita água, mas também muito vinho, transportado em tonéis, de barco, pela Vala Real a fora, até esta encontrar o Rio Tejo, descendo depois até Lisboa. Tantas vezes Lisboa veio ao Cartaxo, que pelo seu vinho se apaixonou. Pelas tabernas da capital portuguesa, outrora com uma vida muito mais activa, o vinho servido tinha a marca do concelho do Cartaxo e era o mais procurado pelos clientes que enchiam estes espaços típicos dos bairros lisboetas.
Mas, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Transformam-se os locais, descaracterizam-se os espaços, criam-se indiferenças. Mas no meio de tanta mudança, os resistentes fazem a diferença. Com teimosia e carolice, entregam-se à preservação da tipicidade dos espaços e das relações estabelecidas pelos seus antepassados.
O Museu Rural e do Vinho do Cartaxo descobriu em Lisboa uma destas relíquias: uma taberna, que apesar de ter evoluído para restaurante, ainda hoje serve o bom vinho do Cartaxo, num rés-do-chão do bairro da Graça, na Calçada de S. Vicente. O chão gasto da soleira das portas e dos mosaicos denuncia os passos dos quantos já por ali circularam, de copo de vinho na mão, petinga na outra, enquanto trocavam dois dedos de conversa.

O prédio que já foi convento albergou inicialmente um espaço de venda de carvão, petróleo e azeite, lado a lado com a taberna. Há mais de uma centena de anos que a casa está na família Fernandes, tendo crescido e se afirmado graças à D. Antónia. Com 84 anos, esta senhora simpática e afável desceu do segundo andar deste prédio ao espaço que tantas vezes pisou apressadamente para dar conta dos pedidos dos seus fregueses, para recordar o espírito, a alma e o ambiente de uma verdadeira taberna lisboeta, que ia a Vila Chã de Ourique abastecer o vinho das suas cartolas, que ainda hoje caracterizam o espaço.

“Ali ao canto, havia um tonel com mil litros de vinho, que se enchia à bomba, tirado de uma camioneta”, recorda D. Antónia, enquanto o seu filho, Mário, actualmente responsável pela casa, aponta na parede as marcas da existência desse grande tonel. A mulher que “fez esta casa” pisou pela primeira vez a taberna com 11 anos e os tempos que se seguiram não lhe deram descanso. “Vendeu-se aqui muito vinho, isto era um corrupio de gente, mas também éramos a melhor casa a vender vinho e considerávamo-nos todos uma família”, recorda, com um sorriso no rosto.
O movimento da casa obrigava a ter três ou quatro empregados só a servir ao balcão. A casa vendia uma média considerável de 14 mil litros de vinho por mês. “Os senhores que trabalhavam em Alfama ou na Graça, paravam todos aqui e por volta das 5 horas a casa estava cheia de homens”, acrescentou, salvaguardando que muitos deles eram, inclusive, “da alta sociedade”.
Há cerca de quatro décadas atrás, a taberna evoluiu para restaurante, por iniciativa de D. Antónia, que foi quem pegou no serviço da cozinha. “Nos primeiros cinco anos comecei sozinha e fazia de tudo aqui. Era boa cozinheira e vinha muita gente aqui de Cascais, muitos só para me verem a trabalhar”, comenta, novamente com um sorriso contagiante. E acrescenta com uma disposição invejável: “já não sou cara laroca… mas já fui!”.
A saída progressiva das pessoas do bairro e o encerramento dos serviços têm afectado espaços como “O Carvoeiro”. Depois de ter saído da tropa, Mário trabalhou neste espaço cerca de cinco anos. Foi para fora e regressou em 2000, para tomar conta da casa. “Os primeiros quatro anos foram bons, tivemos algum lucro, mas de 2004 para cá tem sido uma queda vertiginosa”, lamenta.

O turismo vai ainda trazendo novidades, mas Mário não perspectiva tempos mais frutíferos. E é com tristeza que admite que, a partir do momento em que os lucros não permitirem cobrar as despesas, as portas d’ “O Carvoeiro”, que há mais de 70 anos vende vinho do Cartaxo, vão fechar.
Mas a tarde do dia 25 de Junho pode significar uma esperança. A iniciativa do Museu Rural e do Vinho do Cartaxo permitiu juntar à mesa deste típico restaurante uma octogenária, que tantas vezes teima em sair do seu doce lar, duas jovens promissoras da área do turismo, que estão a explorar e a descobrir outros destinos turísticos tipicamente lisboetas, e a conservadora do Museu da Electricidade. A pronúncia, não do norte, como nos canta os “GNR”, mas das gentes bairristas de uma das colinas mais belas de Lisboa, que dão alma a estes encontros de fim de tarde, só nos poderá anunciar tempos de bonança. Pelo menos é nisso que queremos acreditar.

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