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2008-06-03

João Miguel Morgado
Um viticultor apaixonado pelo néctar do Ribatejo

O gosto pelo vinho está intrínseco à sua própria vida. Aliás, foi "algo hereditário", que os seus cromossomas não ignoraram. Referimo-nos a João Miguel Morgado, um dos viticultores mais respeitados do concelho do Cartaxo e que foi o convidado da 5.ª edição das Conversas na Taberna, no dia 28 de Maio.

Nasceu em 1939, em Pernes, mas cresceu entre as cepas das vinhas que o pai plantou em terras da freguesia da Ereira. É a este recanto do concelho do Cartaxo que deve o gosto pelo cultivo da vinha e o saber de todas as técnicas que fazem sair das uvas um bom néctar ribatejano.

Considerando que o pai dividia a sua vida entre a medicina e a viticultura, João Morgado salientou que “desde pequeno, todos os dias, as doenças e as vinhas eram motivo de conversa em minha casa”. A dedicação às vinhas acabou por passar de pai para filho e, apesar de João Morgado ter seguido um rumo profissional em nada relacionado com a viticultura, fez dele um entendedor conceituado do sector.

A provar essa consideração, está o facto de João Morgado assumir a presidência da Assembleia Geral da Adega Cooperativa do Cartaxo já lá vão duas décadas. No seu cartão de sócio desta entidade consta o número 30.

Teve “uma infância privilegiada”, em que o acesso aos livros, o principal veículo de conhecimento de então, era totalmente facilitado pelo pai, que lhe dava carta branca para a aquisição de todos os manuais que desejasse. Seguiu a área de Gestão de Empresas, mas nunca virou as costas às vinhas, que se estendiam pacientemente ao sol na pequena freguesia da Ereira.

Conhece bem os pequenos segredos das tarefas da vinha, assim como as vantagens e os inconvenientes associados à modernização e às mudanças que vão sendo introduzidas no sector. “Dantes, o vinho tinha uma maior importância social e económica do que agora. Acredito que volte a ter mais importância, mas seguramente que será uma importância diferente”, perspectivou, acrescentando que “a crise do sector vai passar, não sei quando nem como, mas só vai passar para aqueles que se prepararem, pois só esses conseguirão agarrar as novas oportunidades”, defendeu.
 

Esquecendo por momentos o passado, João Morgado continuou com o sentido no futuro e desvendou um pouco daquilo que este viticultor está a planear para a Ereira. “Posso apenas dizer que é um projecto que pretende servir de referencial para o nível com que eu gostaria que fossem tratadas as coisas relacionadas com o vinho”. Desde as vindimas, à vinificação e até mesmo ao copo para servir o vinho, este projecto está a ser pensado para dar um conjunto de respostas com vista a corresponder às exigências da evolução do sector.

“Antes de levarmos o vinho à boca, ele pode dar-nos um conjunto de sensações óptimas, mas para isso é necessário que o copo onde é servido seja adequado, por exemplo”, alertou João Morgado. A evolução do sector foi rápida e está em constante mudança, o que eleva, por sua vez, o tal grau de exigência defendido por este viticultor. “Antigamente, uma pessoa empenhada e interessada nesta área, era capaz de dominar todas as coisas relacionadas com o vinho, ao passo que agora, concentrar todos essas vertentes numa única pessoa, é muito difícil”, constatou.

Um facto praticamente tão difícil como muitos dos trabalhos do campo, feitos de sol a sol. As tarefas da vinha exigiam um esforço físico muito grande, que por sua vez foi substituído pelas máquinas agrícolas. João Morgado lembra-se, particularmente, do canto entoado pelos homens enquanto cavavam. Um “exercício de ginástica respiratória”, que acompanhava os movimentos da enxada a entrar pela terra dentro.

Foi em 1947, quando João Morgado entrou para a escola primária, que o seu pai contratou, pela última vez, homens para cavar a vinha à enxada. A fase seguinte foi a das charruas e dos tractores. O começo de uma modernização sem fim que modificou todas as áreas agrícolas. “Posso dizer que tenho um Lamborghini, mas neste caso refiro-me a um tractor, o primeiro que tivemos”, disse, entre risadas.

A vindima, embora mais alegre, “também era um trabalho muito penoso”. No entanto, a adiafa significava o momento de começar a festa. “O último dia da vindima era um momento de alegria, em que o patrão oferecia um banquete ao rancho. Os cachos mais bonitos eram colocados no cimo do último carro de bois, que trazia uma bandeira, que havia sido bordada às escondidas pelas mulheres, durante a vindima, e depois canta-se quadras populares ao patrão, relacionadas com a actividade da vindima desse ano ”, recordou João Morgado.

Do passado para o presente, deparamo-nos hoje com uma realidade totalmente diferente. Numa altura em que muitos agentes do sector atravessam grandes dificuldades, João Morgado diz, sem exageros, que “os vitivinicultores estão a subsidiar quem bebe vinho”, por isso diz aos amigos do bom néctar “bebam agora, porque no futuro, quem quiser beber um bom vinho terá que pagar muito mais”.

As suas vinhas, que foram herdadas da família, vão em breve passar para a responsabilidade de uma outra geração: a das suas filhas. Uma atitude que honra esta Capital do Vinho, que tanto estima o néctar feito a partir das castas que se expõem por esses campos fora.

© GIC | CMC | Mai08
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