Foi como se nos tivessem transportado para o passado, mais precisamente para épocas em que os campos eram trabalhados de sol a sol, as roupas passavam de pais para filhos, os bailaricos representavam o único momento de diversão dos jovens, os brinquedos eram feitos à mão, a comida nem sempre chegava para todos e a grande maioria da população não estudava mais do que a quarta classe e andava descalça pelas ruas.
A primeira sessão das Conversas na Taberna, realizada na tarde do dia 30 de Janeiro, na taberna tradicional do Museu Rural e do Vinho do Cartaxo, permitiu criar um retrato social, caracterizador do modus vivendus dos cartaxeiros, desde os anos 30 até à década de 70.
Os protagonistas que deram voz a esta primeira iniciativa foram Manuel Barroca, de 85 anos, e José Francisco Fernandes, de 64 anos. Partilhando uma taberna, espaço que hoje já não se encontra ao virar de cada esquina, mas que no passado representou um importante ponto de encontro social ou, mais do que isso, “um centro de cultura do povo”, como lhe chamou José Francisco Fernandes, estes dois intervenientes recuaram até aos tempos de “meninos e moços” para descrever uma sociedade totalmente diferente da que vivemos hoje.
Criado com os avós, Manuel Barroca aprendeu a fazer todos os trabalhos do campo e aos 7 anos de idade já sabia aparelhar o macho. Depois da escola, que frequentou até à quarta classe, ia de carroça ou a pé ceifar erva à Pata Choca, para trazer para os animais. Considerando as exigências educativas dos anos 30, onde a régua recompensava os erros da gramática ou da tabuada, Manuel Barroca optava “por meter o livro dentro da camisa, para estudar no caminho” que o levava até ao campo, recordou.
Se hoje a facilidade de encontrar e comprar um brinquedo é tal que basta uma deslocação ao hipermercado, nos tempos de Manuel Barroca quem queria brincar teria de fazer os seus próprios brinquedos. Camionetas de arame, cavalos ou flautas, feitos a partir das canas, eram alguns dos objectos que alegravam os mais pequenos da época.

Apesar da infância destes dois cartaxeiros estar separada por duas décadas, o facto é que as dificuldades e as contingências da vida pouco diferem. José Francisco viveu sempre nos Casais de Amendoeira, freguesia de Pontével, e teve os seus primeiros sapatos aos 5 anos de idade. No final da quarta-classe, o avô compensou-o com uma bicicleta, mas a sua vontade de continuar os estudos não foi satisfeita, considerando as dificuldades financeiras dos pais.
Sendo assim, aos 10 anos começou a trabalhar. Ora a guardar éguas na Lezíria, ora na apanha da azeitona. Esses tempos “não envergonham” este cartaxeiro, que diz, por isso, ter trocado uma formação académica pela “escola da vida”.
Rumo diferente seguiu Manuel Barroca. Por influência do avô, que não antevia um futuro risonho para a actividade agrícola, escolheu aprender o ofício de carpinteiro. “Ainda hoje, quando olho para os campos abandonados, recordo as palavras do meu avô, que nessa altura já imaginava o que iria acontecer”, referiu. Desde a infância à juventude foi sempre “um menino privilegiado”, considerou, nunca tendo tido necessidade, por exemplo, de andar descalço.
E era precisamente nos tempos da juventude que começava a surgir a vontade de frequentar os bailaricos, animados pelas concertinas, pelos harmónios ou pela gaita-de-beiços. Organizar verbenas – “um espaço com barraquinhas com várias diversões e um recinto para bailarico” – era uma das actividades que motivava Manuel Barroca, também recordada nestas Conversas da Taberna.

Considerando-se uma pessoa “muito determinada”, José Francisco casou aos 19 anos, tendo sido pai aos 20. Uma vida difícil, na qual o campo foi durante muito tempo o seu “ganha-pão”. Não foi perito na organização de verbenas, mas foi um dos fundadores do Centro Cultural e Recreativo Amendoeirense, cujo envolvimento se deveu ao facto de sentir “um grande descontentamento pela forma como se vivia” e uma grande vontade de melhorar a sua terra.
As profissões, a situação financeira, as relações sociais e até os sentimentos constituem hoje uma “sociedade totalmente diferente”. Uma sociedade com mais qualidade de vida, mas “menos feliz”, na opinião do octogenário Manuel Barroca.
Esta foi uma das conclusões da primeira sessão das Conversas na Taberna. A iniciativa partiu do Museu Rural e do Vinho do Cartaxo, que pretende, desta forma, dinamizar o espaço, valorizar as tradições e a cultura do concelho e reforçar o projecto Cartaxo Capital do Vinho.
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