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2008-11-06

Eduardo Polainas nas Conversas na Taberna
Mãos que não mentem na idade nem desmentem o que viveram

No dia 29 de Outubro as Conversas voltaram à Taberna do Museu Rural e do Vinho do Cartaxo, o convidado foi um tanoeiro – Eduardo Polainas.

Eduardo Polainas tem nas mãos as marcas de um “duro ofício” que praticou durante mais de 60 anos e no olhar a mágoa de uma vida cheia de contrariedades. Nascido e criado numa terra de vinhas e de grande produção de vinho, este cartaxeiro tinha 12 anos quando começou a lidar com aduelas, arcos de metal, plainas e compassos.

A arte de fazer barris e cartolas acompanhava os ritmos da produção do vinho no Cartaxo e dela dependiam muitos homens, que desde o nascer do dia ao pôr-do-sol, se dedicavam à construção e reparação destas estruturas, que serviam para armazenar e conservar o vinho nas adegas.

“Neste concelho, não havia bocado de terra que não tivesse uma vinha”, recorda hoje Eduardo Polainas, aos 79 anos. Empurrado pelo pai para a tanoaria, aprendeu o ofício com um dos mestres mais reconhecidos de então: Cândido Rola, de Esmoriz. Foi um aprendiz dedicado, mas também contrariado. “No início não gostava da tanoaria, mas depois comecei a tomar-lhe o gosto”. Tinha o sonho de ser estucador, mas o pai “trocou-lhe as voltas”.
 

Depois de ter estado cinco anos a aprender os segredos do ofício, percorreu várias oficinas de tanoaria. Começou a trabalhar para o Zé Sardinha, depois para o Cunha Treze, António Jacinto, Vieira Machado, os armazéns Vilada e terminou na Quinta da Fonte Bela. Foram 64 anos de árduo trabalho, muitas vezes a lidar com tonéis que pesavam mais de quatro mil quilos.

“Trabalhava de noite e de dia. Vinha do trabalho e ia logo para casa, tinha um trabalho muito pesado, não tinha vontade de ir para os bailes ou para a taberna, só ao domingo”. Era nesse dia que convivia com os amigos. Percorria algumas tabernas da então vila do Cartaxo, a jogar à bisca ou à sueca. Por vezes ia até à taberna do Marau, “que tinha o jogo da laranjinha. Eu era miúdo e já sabia jogar, tanto que os mais velhos escolhiam-me logo como parceiro”, acrescenta.

O fim da guerra no Ultramar imprimiu mudanças no país e atingiu também esta arte. A exportação do vinho para Angola ou Moçambique caiu a pique, arrastando consigo a procura dos serviços de tanoaria, que começaram a escassear. Mas para Eduardo Polainas, que se tornou num distinto mestre, continuou a haver trabalho que lhe permitisse sustentar a família.

Mesmo depois de aposentado, Eduardo Polainas não consegue viver sem o cheiro da madeira. Vencido pelo gosto à arte, é com orgulho que mostra os trabalhos de artesanato em madeira que cria actualmente. Pequenos barris, mesas ou estantes para garrafas são algumas das peças que vai criando ao sabor da imaginação, sem pressas.

Na sua memória, transporta os momentos vividos neste ofício e algumas peripécias, como aquela em que ficou fechado dentro do próprio barril que estava a ajudar a construir. Mas é o corpo que mais sente as mazelas da tanoaria. Durante seis décadas, os braços doridos e as mãos calejadas mediram força com materiais resistentes, que acabou por transformar e adornar. Para quê, pergunta, “se os tanoeiros nunca tiveram valor algum”…

E também não era um trabalho bem pago. “Comecei a ganhar 25 tostões por semana, numa altura em que seis sardinhas custavam 10 tostões. Ganhávamos menos que um carpinteiro ou um pedreiro”.

Mas Eduardo Polainas olha hoje para trás e sente que valeu a pena. Melhor que ninguém conhece os segredos de uma arte que, infelizmente, está hoje em vias de extinção. Para que não seja esquecida, está disponível para a ensinar a outros. Até porque “a prática é muito mais bonita para quem sabe”.

GIC | CMC | Nov08
comunicacao@cm-cartaxo.pt



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