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Página Inicial > Informação > Arquivo > Notícias > Ano 2008 > n_conversasTaberna9ª
2008-11-28

Carlos Dias nas Conversas na Taberna

O que conta quem está do outro lado do balcão

No dia 26 de Novembro, o Museu Rural e do Vinho do Cartaxo voltou a abrir as portas da sua Taberna às gentes da terra, gentes que desde cedo abraçaram trabalhos e ofícios ligados ao vinho. Desta vez o taberneiro, Carlos Dias, saiu detrás do balcão e sentou-se à mesa da taberna para conversar.

Há locais que conseguem testemunhar verdadeiramente o ambiente de outras épocas. São refúgios raros, mas autênticos. Entre as suas quatro paredes, as características de um passado longínquo vão subsistindo, lutando contra um presente cada vez mais incerto, inquietante e, sobretudo, apressado, onde o tempo é contado ao segundo.

Neste cenário de mudança, os hábitos vão-se renovando. Avós, pais e netos raramente partilham as mesmas referências… mas são elas que vão constituindo a memória colectiva, a tradição e a história. O hábito de uma deslocação à taberna para beber um copo de vinho foi-se perdendo e com ele toda a essência destes lugares – geradores de convívio, que acolhiam o entusiasmo das conversas encetadas depois do trabalho, as histórias contadas ao serão ou as desavenças provocadas por um mau perdedor de jogo de cartas.

Quem viveu intensamente estes típicos espaços sabe quanto custa esta mudança. O taberneiro Carlos Cardoso Dias sente-a na carteira e no coração. Tem 73 anos e há mais de 50 que está atrás do balcão. Mas não é por teimosia que mantém as portas abertas da única taberna da cidade do Cartaxo. “Só saio dali se for obrigado. A minha vida é a taberna, se falto lá um bocado para mim é um castigo”, confessa.

A “Taberna do Carlos” fica situada na Rua do Giné, junto à igreja. Hoje os fregueses são menos, mas o espírito mantém-se. O vinho continua a ser servido nos copos tradicionais, a partir das cartolas que Carlos Dias faz questão de exibir no espaço. Pelo menos até o permitirem. “Já ouvi dizer que eles querem acabar com isso. Eu não concordo, porque o vinho é bom e a casa asseada”, argumenta.

Tem esta casa há mais de duas décadas e foi nela que assistiu ao declínio das tabernas. As suas melhores recordações retratam os anos que passou à frente da sua primeira casa, a “Paveia”, que ficava ao pé do mercado. “Eu aí chegava a vender três cartolas de vinho por dia. Agora, se vender uma e meia por semana já é muito bom”, compara, lamentando “as voltas que a vida dá”.

Também a sua deu algumas voltas, contornando as dificuldades. Ainda não tinha 20 anos quando deixou a sua terra natal na Beira Litoral, na zona da Figueira da Foz, e veio para o Ribatejo, à procura de trabalho que lhe desse “mais sustento”. Chegou a trabalhar como padeiro, mas “pagavam pouco”. Foi depois para a Companhia das Lezírias, onde esteve pouco tempo, e depois veio para o Cartaxo, trabalhar para uma vacaria.

A regularidade com que frequentava a taberna “Paveia” fez com que ganhasse afinidade com o proprietário, valendo-lhe a confiança para a passagem do testemunho. Foi aí que o negócio mais lhe rendeu. Tinha a casa sempre cheia de “rapaziada de categoria”, mas se havia algum a beber um pouco mais da conta, a confusão fazia-se da porta para fora. “O vinho não faz mal, desde que bebido com regra. Mas às vezes era beber até cair e eles já sabiam que eu não admitia confusões dentro da tasca”, conta.

Para acompanhar o bom tinto e aconchegar o estômago, Carlos Dias servia alguns petiscos. O “bacalhau albardado” era o que tinha mais saída. A sua esposa era quem lidava com as panelas e também cozinhava língua de porco estufada e carne assada. Mas apesar do jeito para a cozinha, não lhe competia confeccionar o melhor de todos os petiscos. “Havia um padeiro que todos os dias vinha à minha taberna e estava ali umas horas. Um dia ele pergunta-me se eu sabia qual o melhor petisco para servir um copo de vinho. Eu tinha ali alguns, mas não era nenhum daqueles. E então ele responde: uma boa conversa”, recorda o taberneiro, dizendo-se admirado do pensamento deste freguês habitual.

Hoje ainda serve algumas refeições, que são procuradas apenas por algumas pessoas que trabalham na zona. Quanto aos seus clientes, “não são tantos como gostaria”. Mas ainda vão aparecendo para beber um café, uma cerveja ou o típico tinto. Confessa que “não é o melhor cliente de si próprio”, mas admite “fazer a sua parte”, acompanhando um outro freguês a beber um copo.

Apesar da afluência ser menor, a taberna está aberta de segunda a sábado e Carlos Dias diz não sentir-se cansado no final da semana, aliás, o domingo para ele “é triste, porque custa-me viver longe da taberna”. E também não há relógio que dite o fecho da casa, pois são “os fregueses que mandam”.

Carlos Dias viu sempre as mulheres entrar com naturalidade nas suas tabernas. “Antes também bebiam vinho, agora é que é só café”, esclarece. O taberneiro conta que antigamente “as mulheres também conversavam na taberna” e usufruíam do seu convívio. “Eu tive televisão logo no início que ela apareceu, para conquistar clientes, e então, à hora do almoço, as peixeiras corriam para lá para ver as novelas. Comiam sopa e carapaus fritos”.

Quando veio para o Cartaxo, há mais de 50 anos, existiam mais de duas dezenas de tabernas no Cartaxo. Hoje, numa época totalmente diferente, resta-lhe a memória de um dia, por ocasião da Feira dos Santos – que ainda se realizava junto à Praça de Touros – ter chegado a vender 15 cartolas de vinho. “Foi uma loucura”.



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