Adelaide é descendente da família Oliveira, mas adoptou o sobrenome de Félix quando casou. É filha e neta de tanoeiros, por isso, cresceu entre aduelas de madeira, arcos de metal, bigornas, plainas e outros utensílios usados numa arte que hoje já só faz parte do campo das memórias.
A autenticidade de um ofício de ricos e raros saberes foi recordada por Adelaide na segunda edição das Conversas na Taberna, no Museu Rural e do Vinho do Cartaxo, no dia 27 de Fevereiro. Esta cartaxeira diz não ter realizado alguns dos seus maiores sonhos, no entanto, teve o privilégio de ter vivido numa época em que a paródia, a amizade e o respeito eram princípios que guiavam o comportamento social.
A forma conservadora de encarar a liberdade da mulher por parte de seu pai custou-lhe o seu maior sonho e fê-la trocar uma carreira prometedora no teatro pelas linhas, agulhas e dedal da profissão de costureira, a qual exerceu durante 12 anos.

“Cantar era a minha maior paixão e o meu maior sonho era ser artista de teatro”, recordou com nostalgia Adelaide, lamentando a resposta que seu pai dera na altura a Augusto Rossini, quando o confrontou com a hipótese da sua filha poder vir a integrar o seu elenco de actores. “Filha minha não vai para o teatro”, foi a expressão que lhe ficou para sempre na memória.
Antes do pai lhe ter traçado o destino, Adelaide repartia-se pelas oficinas de tanoaria do pai, na Rua do Jardim, ou do avô, na Travessa do Moinho, e as vinhas. Aos 8 anos já empilhava a madeira trazida por camiões de Lisboa e, quase seis décadas depois, ainda não esqueceu as enormes fogueiras que o pai fazia para dar forma aos barris. Um trabalho árduo, muitas vezes feito desde o nascer do sol até altas horas da madrugada, à luz do gasómetro que trabalhava a carboneto.
A par dessa actividade, Adelaide adorava o campo e os animais, por isso não é por acaso que tirou o máximo partido da relação com “melhor amigo do homem”. O seu chama-se “Biju” e, à falta das bonecas, vestia a rigor o seu cão que, pacientemente, partilhava com ela as mais imaginárias brincadeiras. Na vinha, era a cana que fazia de cavalo nos momentos de maior lazer, mas era necessário estar alerta, não fosse ouvir de repente “Maria Adelaide, traz de lá a água-pé”, para servir os homens que laboravam nas vinhas dos avós.
A sua juventude ficou, no entanto, marcada pelas festas e pelos passeios de domingo. Porto de Muge era considerada a “praia das gentes do Cartaxo” e era, por isso, o destino de muitos cartaxeiros, que aproveitavam os dias quentes de Verão para ali passarem o dia, debaixo da Ponte Rainha D. Amélia, aproveitando a sombra dos salgueiros. Era aí que se namoriscava, jogava às cartas e se fazia os piqueniques ou as sardinhadas.
“A praia era linda, nada do que é actualmente, a água era transparente e tinha muita areia”, lembrou Adelaide. A Quinta-feira da Espiga, o Enterro do Bacalhau, o São João e os bailes que organizavam pelos quintais constituíam também importantes momentos de divertimento da juventude, numa altura em que as raparigas saíam à noite sob a “guarda cerrada das mães”.
“Nos bailes, era rapazes de um lado e raparigas do outro, sempre com as mães atentas. Quando o rapaz que nos convidava para dançar não nos agradava, virávamos a cara e fingíamos que não víamos”, descreveu Adelaide. Em casa, a vigilância não era diferente. “Só conseguíamos dar um beijo numa escapadela, enquanto a minha mãe ia a correr à cozinha para a comida não se queimar”, acrescentou.

Mas, como “o fruto proibido é sempre o mais apetecido” e muitas vezes “só damos valor às coisas quando não as temos”, ficam as recordações de uma época diferente, porque é através das pequenas memórias que se reconstituem momentos, sentimentos, profissões ou eventos sociais.
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