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2009-10-06

Fernando Guedes é o comerciante mais antigo do Cartaxo e um "enólogo por afinidade"

Na 16.ª edição das Conversas da Taberna falou-se de vinhos, de comércio tradicional e de música. O comerciante mais antigo do Cartaxo foi quem se sentou à mesa da taberna, para partilhar experiências e algumas aventuras

É nesta altura em que o vinho ganha corpo e aperfeiçoa o seu sabor na adega que Fernando Guedes mais visitas faz aos seus clientes. O caminho que o leva a estas “oficinas” do néctar precioso do concelho do Cartaxo já foi muito mais fácil. Eram outros tempos, em que a sua ligeireza e habilidade lhe permitiam fazer o trabalho de laboratório até altas horas da noite.

Agora, já lhe pesam um pouco os seus 78 anos de idade. Mas ainda assim, com a calma e requinte que lhe são característicos, lá vai assegurando a qualidade dos vinhos do concelho.

“Eu sou enólogo por afinidade, porque não tenho curso nenhum. O meu professor foi o meu pai. Cheguei a fazer duas mil análises de vinho por ano. Agora faço cem. Uns produtores faliram, outros fugiram. É uma pena”.

Vive a vida com paixão e a sua vida é composta de grandes paixões. Além da sua esposa e restante família – que estão no topo da sua pirâmide – encontra nos vinhos uma ocupação paralela que o faz sentir realizado, no piano as sensações que o fazem quebrar a rotina e no comércio, mais do que uma forma de sustento, é um meio de se relacionar com as pessoas e de dar continuidade a um negócio de família.



“O primeiro azar da minha vida aconteceu quando eu tinha 16 anos. Fiquei sem mãe. O segundo foi aos 29 anos, quando fiquei sem o meu pai. Foi nessa altura, em 1959, que passei a ser o dono da casa comercial que hoje tem 110 anos, não é brincadeira! Por sinal, sou o comerciante mais antigo”.

As suas raízes unem o Ribatejo a Inglaterra. É neto de um inglês e de um vilafranquense e filho de um homem que frequentou o terceiro ano de medicina, mas que escolheu o comércio como a sua principal ocupação. “Eu quero ver se o meu filho também seguia com a casa. Ele agora é engenheiro químico, é outra conversa”. 

Mas confessa não ter grandes razões para desanimar. O seu filho já o substitui algumas vezes no balcão e, quem sabe, não seguirá também as suas pisadas na vertente da enologia. “Estou a tentar encaminhá-lo. As bases que tem são suficientes para que fique a fazer análises como eu quero. Ele terá melhores condições que eu para andar para a frente. Mas agora está a dedicar-se à bola, vamos lá ver se quem vai apanhar uma bolada não serei eu”, disse em tom de brincadeira.

As cerca de cem análises anuais que faz actualmente são encomendadas por clientes com características diferentes dos que conheceu outrora. “Faço-as a vinhos daquelas pessoas que chegam aqui e compram um hectare de terreno. Fazem uma vivenda, com piscina, e compram um jipe. E está formulada a quinta. A produção são uns 200 litros de vinho, que eu corrijo para não matar as visitas que vêm de Lisboa ou daqui e de acolá. Se não bebem tudo azedo”, continua, com o mesmo sentido de humor.

Entre graças e gargalhadas, Fernando Guedes fala do Cartaxo como uma “terra riquíssima em vinhos”. Mas que já teve uma expressão maior, salvaguarda. “O vinho de há vinte anos era extraordinário, começando pelos vinhos brancos do campo de Valada – Valada era e ainda é uma preciosidade em vinhos brancos. As casas agrícolas como a do Pedroso, que fazia duas mil pipas de vinho, ou a do meu amigo António Nogueira da Costa, que fazia mil e tal pipas de vinho. Eu estava a fazer análises no laboratório até às duas ou três horas da manhã. O campo era uma coisa linda, aquelas terras cheias de cepas. Agora vejo tantos disparates que venho para casa entristecido”.



Apesar de ter menos trabalho na área dos vinhos, não está por isso menos atento ao sector e mantém-se crítico e exigente. “Não faz ideia a quantidade de garrafas de vinhos com rótulos bonitos e que valem aquilo que eu não posso dizer. Eu não sei se as pessoas têm a boca de cortiça, mas francamente, é inconcebível as aromatizações de vinhos e estas castas modernas com sabor a frutos de outras qualidades. Eu gosto é do vinho tinto como eu sempre fiz”.

E sempre fez o seu trabalho de análise do vinho de forma cuidada e paciente, ainda que muitos colegas de profissão o questionassem. “Octávio Pato era um enólogo muito amigo meu, um amigo com letra grande. Vinha ao Cartaxo e ia direitinho à minha casa. Ia ter comigo ao laboratório e perguntava-me por que é que eu era tão exigente, esquisito em tudo e dizia-me que fazia as coisas com um exagerado requinte. Eu só lhe respondia que fazia como o meu pai me ensinou”.

E era esse profissionalismo a que muitos davam valor. Esse reconhecimento foi demonstrado, inclusive, aquando do lançamento do Concurso de Vinhos do Cartaxo, tendo Fernando Guedes integrado o júri deste primeiro concurso.  

É uma pessoa bem disposta, contente com os caminhos que traçou e optimista quanto ao futuro. Mas precisa de manter esta forte ligação com o passado para continuar a ser quem sempre foi, para seguir com os seus princípios, para dar continuidade àquilo que os seus antepassados construíram.


Gosta de rebuscar no passado tanto as suas grandes aventuras e conquistas como as pequenas coisas que marcavam o seu dia-a-dia. Relativamente aos grandes feitos, recorda o vinho de Guilherme Sousa e Silva que fez dele Campeão Nacional, em 1989, enquanto enólogo. No campo das aventuras, as memórias transportam-no ao dia em que tocou no Hotel Albatroz. “A cantora Bobone estava lá a tocar e eu estava com o Capitão Maia Abreu e o Armando Ferreira. Já tinha bebido dois whiskiezinhos e então sentei-me ao piano e aí vai uma rapsódia minha. Mereci uma salva de palmas que nem queiram saber”.

E foi nas coisas simples, nos pequenos hábitos e gestos que demonstrou o seu sentimento de pertença, o seu gosto pelas pessoas – a saída à rua para beber o seu whisky habitual, os seus jogos de bilhar, que foi mais um gosto partilhado pelo seu pai, as conversas intermináveis com os amigos na sua loja, que, sem perder o fio à meada, eram momentaneamente interrompidas para atender mais um cliente.

Em tudo, diz ter sido um rebelde de primeira. Daqueles que, com educação e bons princípios, honrou sempre os seus próximos e a sua terra.




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