“Fui com 16 para Lisboa. A minha mãe e o meu pai arranjaram-me a mala. Não tiveram coragem de me ir levar à estação. Na Rua do Salitre fazia vento e eu fiquei sem forças, a segurar o colchão, que levava enrolado às costas. Aí chorei”.
Por vezes, são as recordações amargas que mais facilmente ficam guardadas na memória. Esta é uma das que Joaquim Marques recorda com detalhe e sentimento, como se fosse hoje. Marcou-o de forma especial, não tivesse sido aquele um dos primeiros momentos em que a sua coragem e valentia foram colocadas à prova.
E quantas não foram as diferenças que este jovem cartaxeiro – habituado ao ambiente calmo, pacato e familiar do mundo rural – encontrou na capital portuguesa. “Dormia e comia numa pensão e ia trabalhar para a oficina na Rua do Arco. Estava acostumado a comer em casa pão caseiro. Ali era só meio papo-seco por dia. Estávamos no tempo da guerra”.
Joaquim Marques nasceu num pequeno lugar próximo de Santana – ponto de partida e de chegada de pessoas, que utilizavam o comboio para as suas deslocações. “Até aos 4 anos não tive amigos. As únicas companhias para brincar eram um gato e um cão”.

Cresceu neste ambiente mais isolado até entrar para a escola. Foi aí que o cenário mudou. “Quem morava a sul da linha de caminho-de-ferro ia para a escola de Vila Chã de Ourique, mas eu, que morava a norte, tive de vir sozinho para o Cartaxo. Fazia sempre dez quilómetros a pé todos os dias. Foi assim durante toda a minha instrução primária”.
Como era habitual na altura, após a escola, as crianças começavam a aprender um ofício. Joaquim Marques começou por trabalhar nos escritórios de Henriques e Gomes, mas isso não o entusiasmou. “Eu não gostava dos escritórios, por isso tive de ir para a oficina”.
Foi então na mecânica que encontrou a sua motivação. Uma das primeiras oficinas por onde passou foi a do António Ferreira. Depois de ter estado a trabalhar em Lisboa, regressou ao Cartaxo, com a ideia de se aventurar no negócio por conta própria. “O meu pai começou a construir umas casas num terreno que tinha, e então eu pedi-lhe para as fazer um pouco maiores, para eu lá montar a oficina”.
E assim foi. O negócio começou a ter “pernas para andar” e a clientela a aumentar. Isso deveu-se, em parte, à forma como se tratava os clientes. “Para termos uma oficina temos de saber lidar com cada cliente. Se ele gosta de bola, falamos de bola, se gosta de dança perguntamos se foi ao baile e se gostou”.
O seu trabalho baseava-se mais nos motores industriais e carros pesados. Foi nessa vertente que se especializou. “Tive a sorte de arranjar uma boa clientela. Devo o valor ao Mateus Rosa, que foi o primeiro cliente e que depois foi espalhando nos cafés. Faz de conta que eu era empregado dele”.
O Mateus Rosa e a Vinical dedicavam-se à produção de vinho e eram consideradas duas das maiores casas agrícolas do concelho. A reparação das suas máquinas e outros aparelhos mecânicos tinham o cunho de Joaquim Marques, que preferia arranjar um camião que um automóvel. “Era mais rentável”.
A sua oficina é a única no concelho que sobreviveu às dificuldades dos tempos, chegando aos dias de hoje com o nome de “Auto-reparadora 1.º de Novembro”.

Joaquim Marques, hoje com 81 anos, sente-se satisfeito por ver que o seu trabalho e dedicação construíram algo que perdurou no tempo. “Fui sempre uma pessoa remediada. Cumpri sempre com os meus deveres, paguei sempre as minhas contas. E dei-me sempre bem com os meus clientes, tive apenas um ou outro mais complicado”.
Repartido entre as responsabilidades do trabalho e a vida familiar, Joaquim Marques encontrou também tempo para gozar do convívio social. “Sítios onde dancei: em Santana, no barracão do Rafael Camacho, pátio do Palmela, adega do José da Horta, salão da música no Ateneu Artístico Cartaxense, baile das vides, em valada do Ribatejo”, entre outros…
“Sempre fui um homem de bailaricos. Gostava da bola, mas depois de ter apanhado uma grande molha em Lisboa, para ver o Benfica, disse nunca mais à bola”. Ora aí está um homem decidido, que faz questão de não apagar as recordações dos melhores momentos da sua vida. E para o caso da sua memória o começar a atraiçoar, nada melhor que ir rascunhando no papel aquilo que lhe vai na mente e na alma.